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Fernanda Torres, a versão feminina de Chico Buarque

Diz o senso comum que Chico Buarque é um dos raros homens que verdadeiramente compreende as mulheres. Nunca esbarrei em pesquisa que renegue esta conclusão e nem em mulher que rejeite o cantor, embora acredite que isso tem a ver com seus olhos verdes.

Capa de “Fim”, romance de estreia de Fernanda Torres

Ela não tem olhos verdes. Não é daquelas que chama a atenção da classe masculina logo de cara. E, assim como Chico, é filha de alguém responsável por grandes contribuições culturais à sociedade. Ele se destacou ao “ler” a alma feminina em suas canções. Ela, Fernanda Torres, escancarou o espírito masculino em seu primeiro romance, ironicamente chamado de “Fim” (Companhia das Letras).

Esqueça a filha de Fernanda Montenegro e a boa atriz. Estamos falando aqui de uma grande escritora. Daquelas que prende o leitor desde a primeira linha, mesmo quando a primeira linha é um desabafo ranzinza de um idoso frustrante e frustrado:

“Morte lenta ao luso infame que inventou a calçada portuguesa. Maldito d. Manuel i e sua corja de tenentes Eusébios. Quadrados de pedregulho irregular socados à mão. À mão! É claro que ia soltar, ninguém reparou que ia soltar? Branco, preto, branco, preto, as ondas do mar de Copacabana. De que me servem as ondas do mar de Copacabana? Me deem chão liso, sem protuberâncias calcárias. Mosaico estúpido. Mania de mosaico. Joga concreto em cima e aplaina. Buraco, cratera, pedra solta, bueiro-bomba. Depois dos setenta a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos”, diz Álvaro, um dos cinco amigos que Fernanda “acompanha” em sua obra.

Álvaro, Ciro, Neto, Silvio e Ribeiro são o equivalente masculino de Ana, Joana, Terezinha, Lily e tantas outras personagens das músicas de Chico. Nas canções, ele aponta o mundo sob o ponto de vista delas. No romance, Fernanda narra seus capítulos a partir do olhar de cada um deles. Olhar triste, intenso, estúpido, destrutivo, efusivo.

Tão variados quanto às possibilidades que as décadas de 60 e 70 davam a sua classe média. Sim, estamos falando de cariocas. Nem ricos, nem pobres. Todos com limitações, medianos – medíocres, diria Álvaro –, homens comuns. Recheados de desejos, medos, fragilidades, inseguranças. E drogas e mulheres, claro, indivíduos condizentes com as nuances do seu tempo.

Fernanda imprime no papel o ímpeto e o desânimo destes homens. O orgulho, a conduta inconsequente. Os abusos, a necessidade de assumir riscos, a busca eterna pela autoafirmação. Eles resistem às mudanças, se esquivam das novas exigências do mundo, fogem de si mesmos. Não conseguem amadurecer, por fim.

Tudo isso num ritmo informal, tão fluido quanto as melhores passagens de Marcelo Rubens Paiva em “Feliz Ano Velho”. Fácil de atravessar as 208 páginas de “Fim”. Difícil é compreender esta capacidade da autora de aproveitar as vivências, em contato privilegiado com figuras como o ator Jorge Dória e o cartunista Millôr Fernandes, amigos dos seus pais, para criar relatos de vida tão intensos e nem tão ficcionais assim.

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Entre lojas e camelôs, o discreto “oásis” da 25 de março

Entrada da Igreja Ortodoxa da Anunciação de Nossa Senhora

Cercada por lojinhas de presentes, camelôs alvoroçados, vendedores com microfones em punho e buzinas de carros, a Igreja Ortodoxa da Anunciação de Nossa Senhora quase passa despercebida pelas pessoas que buscam o comércio intenso da Rua Basílio Jafet, a poucos metros da turbulenta rua 25 de março, epicentro do mercado informal de São Paulo. A discreta Igreja se resume a duas espessas portas de madeira no térreo de um prédio comercial e tem como vizinhos duas lojas de tecidos, afora, é claro, as barracas improvisadas na calçada logo em sua entrada.

Mais antiga igreja Antioquina do País e possivelmente o primeiro templo de origem ortodoxa erguido em uma capital brasileira, a centenária igreja só se destaca das lojas vizinhas pela bela fachada, em formato de arco. E pelo letreiro esculpido em pedra, acima da entrada, mas quase encoberto pelas lonas das barracas.

“O que funciona aqui?”, pergunta, curiosa, a funcionária pública Maria Celestina Guimarães ao constatar um corredor silencioso entre duas lojas no Edifício Nossa Senhora da Natividade. Se por fora o prédio não lembra uma igreja tradicional, por dentro, o templo cristão possui até um pequeno mezanino. O corredor, com cerca de 20 metros de extensão, é decorado com imagens de santos. Ao fim do trecho, o pé-direito se torna mais alto, com cerca de 8 metros, e surge o altar, à direita, e os bancos para os fiéis, à esquerda.

A localização em um prédio comercial, no entanto, espanta os visitantes. Nem sempre foi assim. Inaugurada em 1905, a Igreja Ortodoxa da Anunciação de Nossa Senhora possuía uma arquitetura tradicional, com cúpula e até sino. O templo foi erguido com as doações dos imigrantes árabes que moravam na região, mas os responsáveis pela Igreja não queriam depender apenas dos recursos dos fiéis.

No final da década de 30, ela foi reformada com o objetivo de “recortar” a cúpula para que se pudesse erguer seis andares sobre o templo. O aluguel dos imóveis deu independência financeira à instituição. “Eles não sabiam se os filhos continuariam a sustentar a Igreja. E se tivessem que fechar as portas?”, questiona o padre Dimitrius Attarian, da Igreja Católica Apostólica Ortodoxa Antioquina, proprietária do prédio.

Embora afirme desconhecer o valor obtido com os aluguéis, o religioso explica que os recursos mantêm a Arquidiocese de São Paulo, incluindo a estrutura do templo, da Catedral, no bairro Paraíso, o clero e os funcionários. Parte da renda também é utilizada como fundo de caixa para custear reformas, como a que foi realizada na própria Igreja da Rua Basílio Jafet, há sete meses.

Interior da modesta igreja ortodoxa localizada no epicentro do comércio popular de SP

Interior da modesta igreja ortodoxa localizada no epicentro do comércio popular de SP

Novo Público

A Catedral materializou o temor dos responsáveis pela igreja localizada no centro da cidade. Ao enriquecerem, os árabes que sustentavam o templo se mudaram para bairros mais nobres, o que exigiu uma nova sede, fundada em 1958. Por consequência, a Igreja Ortodoxa da Anunciação de Nossa Senhora perdeu fiéis, o que se agravou nas décadas seguintes em decorrência da degradação do centro da capital. Padre Dimitrius atribui essa deterioração à própria saída dos árabes da região. “Os mascates deram lugar aos ambulantes. As casas foram substituídas por cortiços”, afirma.

A nova igreja concentrou as atividades da arquidiocese, o que resultou na mudança de público do local. Atualmente o templo é visitado por pessoas que estão de passagem pelo comércio, por curiosos e vendedores da região. “É um pequeno oásis religioso no meio do turbilhão”, conclui Dimitrius. O visitante pode obter um momento de paz, apesar do burburinho da rua a poucos metros do altar, garante o religioso.

O barulho dos vendedores, dos carros e dos passantes não atrapalha a realização da missa às quartas-feiras, pela manhã. “Se alguém incomodasse, eu faria um acordo com os ambulantes. Não vou pedir para tirarem eles dali”, diz o padre. O horário incomum do ritual também se deve à mudança de público. De acordo com o padre, responsável pelas celebrações, poucos fiéis ortodoxos moram na região. “Se fosse no final de semana, não iria ninguém”, admite. Apenas 20 pessoas costumam participar do ritual. Metade são católicos romanos. “Há mais católicos fiéis que ortodoxos”, revela.

Para Dimitrius, a importância do templo está em sua história. “Os maiores representantes da Igreja Antioquina brasileira, como políticos, empresários, magnatas e artistas foram batizados lá”, recorda. Toda a primeira geração de imigrantes esteve ligada ao local. Por essa razão, o religioso nunca pensou em transformar a Igreja em mais uma loja do prédio comercial. “Seria um tapa na cara de quem foi batizado lá”. No entanto, o padre admite que os fiéis mais antigos deixaram de visitar o local. “Ninguém vai mais lá”, lamenta o membro de uma comunidade estimada em 500 mil pessoas somente na capital.

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Nem a chuva acabou com a alegria de Paul

Paul McCartney no Allianz Parque, em São Paulo (foto: Marcos Hermes/Midiorama)

Paul McCartney no Allianz Parque, em São Paulo (foto: Marcos Hermes/Midiorama)

Seria um trocadilho infame dizer que o show de Paul McCartney deixou todos de alma lavada? Sim. Mas raramente um trocadilho manjado como esse fez tanto sentido. Perdoa-se com facilidade exageros e lugares-comuns diante da alegria que o Beatle proporcionou aos fãs. Pois, sim, foi de alma lavada que eles deixaram o novo estádio do Palmeiras, na noite do dia 25, quase 26.

Antes da festa, porém, é preciso esperar por ela. Seria a melhor parte dela, segundo o dito popular. E a expectativa só cresceu nos 45 minutos de atraso do show. Perdoável, assim como o trocadilho.

Logo Paul despontava no primeiro palco montado sobre o gramado do Allianz Parque, na zona oeste de São Paulo. Seu sorriso só era maior que a empolgação dos fãs. Taí um caso de genuíno carisma no mundo musical. Carisma de verdade, não aquele fabricado, de sorrisos amarelos e falsa simpatia, tão comum em qualquer semicelebridade. Falo daquela carisma que só o tem os líderes naturais. Para seus seguidores, uma palavra tem força de ordem. Com uma sílaba, ele é capaz de convocar milhares de vozes para criar um imenso coro numa singela canção.

Paul só precisou fechar os olhos para carregar a multidão em “All my loving”. Percorreu “Let me Roll it” e “The long and winding road” com apoio maciço do público. Em “Let it be”, o clima solene fez o show parecer uma missa, tal era o respeito do público pela letra sagrada. Paralisados, quase com as mãos postas, os fãs só moviam os músculos da face para cantar o refrão a plenos pulmões.

Daí em diante o Beatle (sem esse papo de “ex” porque ser Beatle é que nem ser padre: não se perdem os votos jamais) provocou aquilo que se convencionou chamar de catarse coletiva. Nenhum ser vivo naquele estádio ficou imune ao som.

Para não dizer que não falei do set list, Paul não decepcionou. Estavam lá “Band on the run”, “Back in the URSS”, “Live and let Die”, “Yesterday”, “Helter Skelter”. Cada uma delas, ao seu estilo, era acompanhada com atenção, gritos e muitas capas de chuva.

Lembra do trocadilho infame? Pois então. A água molhava até os mais precavidos, munidos de capas, botas (?), bonés e afins. Tênis encharcado, calça pesada. Normal.

Nada disso importava. Éramos todos fiéis seguidores do líder Paul. E a chuva não nos abalava. Pelo contrário, enchia os olhos a chuva de fogos de “Live and Let Die” e a chuva de papel picado. E até a própria chuva chegava a encantar numa São Paulo preocupada com a seca. Só precisou de um Beatle na cidade para ver chuva de verdade – com o perdão da rima involuntária.

Porque música é alegria

Nem chuva, nem capa: fã se esbalda no show de Paul no Allianz Parque, em São Paulo (foto: Marcos Hermes/Midiorama)

Nem chuva, nem capa: fã se esbalda no show de Paul no Allianz Parque, em São Paulo (foto: Marcos Hermes/Midiorama)

Paul canta aquelas canções que todo mundo sabe a letra, ao menos o refrão. É popular, sim. Sem maiores sofisticações, mas nem por isso de menor valor. Fazer música popular é tão difícil quanto escrever um texto fácil de ler. Qualquer um que já assumiu esse risco conhece a dificuldade que é.

A música de Paul, e dos Beatles, é fácil, simples e adorável. O popular sem frescura, até sem letra, se puder. Os refrões de “Hey Jude” “Ob-la-di ob-la-da” estão aí para não deixar dúvidas. Esta talvez seja uma das músicas mais divertidas do cancioneiro ocidental. Os balões jogados ao público deram toque ainda mais especial ao hit.

Tal era o encantamento que seria impossível não levar para casa uma parte daquele show. A turma deixava o estádio assobiando os refrões mais famosos, a canção mais tocante, o sucesso mais querido entre tantos. A alegria era contagiante. Paul nos lembrou porque gostamos tanto de música.

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O irmão, a missão e o sorriso de Guga

Gustavo Kuerten tem uma missão. Ele ainda não sabe qual é. Mas acredita que tem alguma coisa a ver com seu sorriso. Não aquele sorriso aberto que os fãs se acostumaram a ver nos fins dos torneios, com um troféu erguido sobre seus cachos. Também não é aquele sorriso do dia a dia, que diferencia as pessoas ditas simpáticas dos demais seres vivos um tanto carrancudos. É aquela expressão de alegria que sobrevive aos obstáculos da vida, dos saibros e das gramas, das dores e das mortes. Isso é para poucos. E poucos têm missões, no sentido mais amplo da palavra. Por isso Guga acredita que tem uma missão.

Seus obstáculos iam muito além daquela redinha de meia altura instalada no meio da quadra. Superavam com facilidade os saques de Sampras, Kafelnikov e companhia. Vinham desde a infância, quando seu pai morreu justamente em uma quadra de tênis. Moram em sua memória este e outro dia difícil, em que presenciou a morte do irmão Guilherme, com severas limitações físicas e de raciocínio.

“O pai continua me impulsionando para frente”, diz Guga, referindo-se ao seu genitor, Aldo, sem o pronome “meu”, à moda de catarinenses e gaúchos. “Isso me deixa contente, tanto ele quanto o Gui. Foram as maiores perdas da vida, muito duras. Mas é um sofrimento que não fica doendo, é um sofrimento que é pelo lado positivo. Se faz falta, é porque realmente eu tenho que ter orgulho dessas pessoas cada vez mais e me apoiar nelas continuamente”, afirma o ex-número 1 do mundo em entrevista exclusiva – a primeira parte da conversa foi publicada pelo Estadão e pode ser conferida neste link.

O famoso sorriso de Guga: em busca de sua missão

O famoso sorriso de Guga: em busca de sua missão

Guga conversou com o autor deste blog por ocasião do lançamento de sua biografia “Guga, um Brasileiro”. Neste livro de título modesto, pouco coerente com sua trajetória extraordinária, o tenista aposentado explica como tirou combustível dos capítulos mais tristes de sua vida.

“Tem bastante sofrimento ali, mas a sensação [ao escrever] era de transmitir a história feliz. Sou um cara que sou mais conhecido pelo sorriso, pela alegria. E minha história é feliz. Então, apesar da dramaticidade que tem no livro, a ideia era estar construindo a narrativa de uma forma agradável que a pessoa pudesse saborear com alegria, mesmo nos momentos ruins. Foi uma chave que virou na minha vida. De eu entender que até mesmo essas pauladas mais duras precisam ser bem observadas, precisam ser vistas por um lado positivo. É duro, mas na hora, você toma umas pancadas, com 18, 19 anos, tudo pode ir por ladeira abaixo, tudo acontecendo…”

Uma das pauladas mais dolorosas que Guga levou da vida foi a morte do irmão, aos 28 anos, em 2007. Ele pôde presenciar o momento do falecimento ao observar no hospital as últimas reações do querido familiar que sofria de paralisia cerebral. A tristeza, claro, ainda persiste numa segunda camada de sentimentos. Na primeira, Guga virou a “chave”.

Na sua vida, essa chave ganhou o nome de Instituto Guga Kuerten, chamado apenas de IGK por ele mesmo e seus colaboradores. Na vida de sua mãe, inspirou o trabalho à frente da Apae de Florianópolis. O ex-atleta não hesita ao afirmar que não fosse Guilherme em sua vida dificilmente teria gestado em sua mente a entidade sem fins lucrativos que atende cerca de 700 crianças e adolescentes na Grande Florianópolis.

“Sem ele, muita coisa deixaria de existir. Acho que o Gui me ajuda ainda constantemente a manter esse lado humano de uma forma absurda. O convívio com um irmão deficiente traz um ensinamento lindo e uma vivência humana que é espetacular”, ensina.

A capa da biografia de Guga Kuerten

A capa da biografia de Guga Kuerten

“Hoje a gente está antenado em tudo e esquece o que o cara do meu lado precisa. Do Gui, precisava trocar fralda, dar comida na boca. Era uma alegria que simplesmente acontece… É o auxílio humano, isso é imensurável. Como uma coisa muito simples consegue trazer uma alegria tão grande! Isso é contagiante! Acho que o Gui traz pra nossa família alguns conceitos de amizade, de valores, de comportamentos. Pô, é por causa dele. Ele foi o nosso professor. Além disso, ele gerava a união. Quando percebíamos, estávamos todos ao redor dele. Ele foi um cara fantástico. Hoje trazendo ao IGK um pouco dessa recompensa…”

Trabalho social, histórias de superação, grandes resultados em quadra, facilidade para se comunicar com o público. Você se vê com uma missão no mundo, Guga?

“Ainda não, cara. Não é tão claro. Parece que eu tenho uma vocação de contagiar as pessoas e o tênis me ajudou muito a fazer isso numa escala de milhões. Percebi há uns dois anos. O livro me ajudou um pouco a entender isso. É algo que é provocativo em mim em continuar contagiando as pessoas, de continuar envolvendo as pessoas. Agora com o livro, novamente”, diz ao citar a divulgação dos seus obstáculos e das suas “chaves”.

“Talvez isso seja uma missão dentro dessa vocação que eu tenho. Observo mais pelo lado natural. A resposta é sim, mas não sei qual seria. É continuar em frente. Eu vejo o resultado e depois eu posso dizer que eu completei essa missão também. Porque eu nunca tive uma visão de que ‘minha vida vai ser assim e assim’. Minha vida foi construída com a intuição, ingenuidade, uma crença maior, um estímulo e aí vai montando tudo isso. É assim que eu gosto”.

Guga dá o último sorriso. Na entrevista, é claro.

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Para onde vai o ser humano? O diretor Luc Besson usa a imaginação

Lá nas primeiras aulas de ciência, a professora ensinava em tom quase solene que a humanidade utiliza apenas 10% da capacidade do cérebro. Espantados, os alunos usavam estes mesmo 10% do seu suposto potencial intelectual para fazer as perguntas inevitáveis: e se fosse possível ao cérebro consumir uma porcentagem maior, 20, 30 ou 50%? Ou quem sabe até 100%? O que aconteceria?

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Scarlett Johansson em “Lucy”: entre o humano e o divino

Aluno curioso, o francês Luc Besson levou a sério estas perguntas quase filosóficas (e falaciosas, vide Mito 1 abaixo) e, já adulto, resolveu colocar na tela um exercício de imaginação. Com um roteiro de cinema hollywoodiano, o diretor criou “Lucy”, interpretada pela bela Scarlett Johansson.

A começar pelo nome do filme e da protagonista, o diretor deixa claro que faz um filme pretensioso. Ao escolher Lucy, ele busca referência científica para valorizar sua história. O nome se refere a um dos hominídeos mais antigos já descobertos, em 1970, na Etiópia. O achado, da espécie Australopithecus afarensis, de 3,2 milhões de anos, ganhou fama pela forma como foi batizado. Os pesquisadores envolvidos na descoberta eram fãs de Beatles, do clássico “Lucy in the sky with Diamonds”.

Se, para os cientistas, Lucy marca a origem da humanidade, para Luc Besson Lucy é o futuro e a fronteira da humanidade. Com este verniz científico, disfarçado de homenagem, o diretor criou um personagem que potencializa seu cérebro por acaso, através da ingestão acidental de uma superdroga (leia o Mito 2).

A presença da poderosa substância no sangue faz a protagonista evoluir intelectualmente a passos largos rumo a um estado desconhecido, nas fronteiras do conhecimento humano. A cada 10 minutos de filme, surge um aviso na tela: 50%, 60%, 70%. Cada salto significa níveis incríveis de conquista para o ser humano. A narrativa um tanto metódica não é por acaso, lembra o padrão mais ortodoxo que caracteriza o discurso científico.

Aos poucos, Lucy deixa de sentir dores, porque adquire controle total sobre seu corpo, incluindo, claro, os neurônios. Ela alcança uma espécie de memória total e seus sentidos, exaltados, podem captar qualquer som, imagem, sensação. Os limites do corpo vão sendo expandidos um a um. Tudo isso ao mesmo tempo, de forma descontrolada. Como se tempestades de informações atacassem sua mente.

Até que ela atinge a sonhada capacidade de 100%. É um daqueles momentos em que a ciência – no caso a especulação científica – vai tão fundo que esbarra na filosofia. Surgem naturalmente as questões mais antigas da humanidade: quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Lucy se torna onipresente e assombra a todos, incluindo o professor Norman (Morgan Freeman), que tenta ajudá-la. Ao mesmo tempo em que existe e habita em todos os lugares, como se fosse um deus, Lucy deixa de existir, por perder sua individualidade.

O roteiro de Besson, que remete a filmes como “2001, uma Odisseia no Espaço” e “Matrix”, é recheado de tiros e perseguições. Não condiz com as interessantes questões que poderiam estimular o espectador. O fim também não é dos melhores. Um pouco mais de abstração, ao invés de armas, daria ao enredo um final mais digno.

No entanto, Besson mantém o mérito de se arriscar em uma história tão inesperada e de bilheteria incerta. Minimize a correria do filme e deixe sua mente divagar diante das especulações do diretor francês. Não é toda hora que alguém faz você pensar sobre todo o potencial humano de mudar a si mesmo e o mundo.

Lucy "lê" e interfere em ondas eletromagnéticas

Lucy “lê” e interfere em ondas eletromagnéticas

Abaixo vão algumas das questões discutidas em “Lucy”:

Inteligência x Sentimento: Quanto mais usa a capacidade do cérebro, menos humana Lucy se torna. Lembra a Síndrome de Savant, através da qual pessoas são capazes de feitos incríveis, como memorizar uma lista telefônica inteira. Por outro lado, apresentam poucas habilidades sociais. No caso da personagem, ela abdica de seus sentimentos e perde parte da humanidade. Trata-se do velho (mas só aparente) conflito entre cérebro e coração, inteligência e sentimento, robô e ser humano.

Fim da individualidade: De tão inteligente, Lucy afeta o tempo e o espaço ao seu redor. Invade televisores e computadores apenas com a força da mente. É capaz de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Por fim, praticamente descarta o corpo para estar em tudo simultaneamente.

Deus x Homem: A ubiquidade, esta capacidade de estar em todos os lugares, aproxima de vez a personagem de Deus. Ela pode voltar no tempo – e até se encontrar com a Lucy original –, “ler” ondas elétricas, decifrar todos os mistérios do mundo. O ser humano, então, se torna um deus tecnológico, que coordena o universo a partir somente de impulsos elétricos. É como se a tecnologia fosse o futuro inevitável da evolução da humanidade, a exemplo da visão pós-humana inerente a filmes como “Robocop” e “Homem de Ferro”.

Mito 1: O filme se fundamenta numa premissa que é falsa. Não passa de mito a história de que o ser humano utiliza apenas 10% de sua capacidade. Neste artigo, o neurologista Barry Gordon explica que “usamos virtualmente cada parte do cérebro e a maior parte dele está ativa durante quase todo o tempo”.

Mito 2: A droga chamada de CPH4, que dá os superpoderes à protagonista, não existe. Mas se baseia em uma substância real produzida em pequenas quantidades por grávidas a partir da sexta semana de gestação. A enzima é importante para o desenvolvimento do feto, mas teria quase nenhuma consequência em adultos. Seus efeitos sobre o cérebro de Lucy são pura especulação do diretor.

Curiosidade: Inevitável a comparação entre dois dos últimos filmes de Scarlett Johansson, ambos com temática futurística. Em “Ela”, a atriz interpreta uma máquina que quer virar ser humano. No filme “Lucy”, temos um ser humano buscando se tornar uma máquina. Alguma possibilidade destas histórias acabarem bem?

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O Desafio do Balde de Gelo e Stephen Hawking

O que um balde de gelo poderia ter em comum com o cientista Stephen Hawking? E qual seria a relação entre centenas de vídeos de famosos vertendo água gelada na cabeça e o astrofísico? Tanto o viral do balde quanto o britânico lutam pela mesma causa: ajudar as pessoas portadoras da Esclerose Amiotrófica Lateral, também conhecida pela sigla ELA, a ter uma vida melhor.

O astrofísico britânico Stephen Hawking

O desafio, que rapidamente se espalhou pela internet, teve início em julho deste ano, quando Chris Kennedy, um jogador de golfe dos Estados Unidos, desafiou uma prima, cujo marido era portador da ELA, a tomar um banho de balde cheio de água e gelo em troca de uma doação em dinheiro para entidades que financiam pesquisas sobre a doença.

A ação foi filmada, caiu na rede e logo alcançou Pete Frates, jogador de beisebol diagnosticado com o problema há dois anos. Com ajuda de amigos, ele popularizou a ideia de fazer doações. O desafio ganhou definitivamente as redes sociais quando Mark Zuckerberg, criador do Facebook, entrou na onda e indicou Bill Gates para também levar o banho e fazer uma doação. Daí em diante o viral se estabeleceu e conquistou inúmeros adeptos pelo mundo todo, do primeiro-ministro da Itália a Neymar.

A ideia do balde de gelo faria referência ao choque da descoberta da ELA. Ouvir o diagnóstico da doença sem cura seria como levar um banho de água gelada na cabeça. Outra explicação diz que o gelo deixaria a pessoa paralisada, como acontece com as vítimas da ELA.

Aparentemente bobo, o desafio levantou nada menos que US$ 100 milhões em doações à ALS Association, maior referência na doença no mundo. No Brasil, onde a ELA atinge 1,5 paciente a cada 100 mil habitantes, o viral já arrecadou R$ 125 mil.

Stephen Hawking não participou da iniciativa. Mas ficou feliz pelo destaque que a doença ganhou ao redor do globo. De forma mais modesta, o britânico já vinha fazendo esforço para divulgar a causa há alguns anos. Ainda em 2009, ele se tornou patrono da Associação MND (Motor Neuron Disease, ou Disfunção dos Neurônios Motores), da Inglaterra.

Mesmo limitado a uma cadeira de rodas, sem poder mover braços e pernas, o físico aceitou emprestar seu nome à causa, além de participar de eventos para levantar fundos, palestras, entre outras ações de divulgação

Para portadores da doença, Hawking não se tornou um exemplo apenas pela iniciativa de ajudar. O britânico de 72 anos virou referência por driblar os obstáculos impostos pela rara doença e conseguir ter uma vida rica em grandes experiências – casou-se duas vezes e tem três filhos e três netos – e uma carreira bem-sucedida.

Ele foi diagnosticado com a ELA – também conhecida por Doença de Lou Gehrig e Doença do Neurônio Motor – em 1963, quando tinha apenas 21 anos. Desde então vem convivendo com as consequências da degeneração progressiva dos neurônios motores do cérebro e da medula espinhal. Em outras palavras, ele perdeu gradualmente os movimentos de pernas e braços, a fala, tem dificuldades para respirar, mas consegue controlar os movimentos oculares e os demais sentidos e mantém intacta sua brilhante inteligência e sua memória.

Hawking chama atenção não apenas pelo desenvolvimento que teve em sua carreira. Cientificamente, ele é um caso raro. Pelos padrões da doença, o portador da ELA tem previsão de no máximo cinco anos de vida após o diagnóstico. Raríssimos são aqueles que vivem por mais de 10 anos. O físico convive com a ELA há incríveis 51 anos.

Além disso, ele surpreendeu por ter desenvolvido a doença muito cedo, aos 21. Na média, os sintomas só começam a aparecer a partir dos 40. Como se quisesse fazer valer a pena o prolongamento de sua vida, Hawking se empenhou profissionalmente e obteve raro destaque na academia. Não por caso é considerado o físico mais brilhante desde Albert Einstein.

Não bastasse tudo isso, o britânico agora trabalha para ajudar outro cientista a criar um poderoso mecanismo, que pode ajudar muito as vítimas da ELA. Trata-se do iBrain, um sensor com uma refinada capacidade de interpretar as ondas eletromagnéticas produzidas pelo cérebro. Desenvolvido pelo neurocientista americano Philip Low, o iBrain faz a leitura das ondas e as traduz em movimentos.

No futuro, poderia transformar os pensamentos de Hawking diretamente em palavras, ao converter as ondas cerebrais em voz. O físico poderia também ditar textos para o computador, tudo através do pensamento. Seria uma versão muito aperfeiçoada do mecanismo tosco utilizado pelo protagonista do filme francês “O Escafandro e a Borboleta”. Na história, um jornalista perde os movimentos do corpo após um AVC e só consegue se comunicar com piscadas do olho esquerdo.

Hawking já começou a participar dos experimentos do iBrain. Se der certo, poderá ser mais uma grande contribuição do astrofísico, especialista em buracos negros e gravidade quântica, para o conhecimento humano. E poderá ajudar a viabilizar seu maior sonho: viajar até o espaço.

Stephen Hawking em ambiente de gravidade zero: o sonho ainda é conhecer o espaço

Stephen Hawking em ambiente de gravidade zero: o sonho ainda é conhecer o espaço

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Copa: Vaias, palavrões e identidade nacional

Muito já se falou sobre as vaias e xingamentos à presidente Dilma Rousseff durante a Copa do Mundo. Retomo o assunto ao fim do torneio porque acredito que as ofensas revelam bastante não apenas sobre as circunstâncias atuais do país e do mundo mas por dizer algo até sobre a identidade nacional. Como já escreveram brilhantes sociólogos deste país, o futebol ajuda a explicar o povo brasileiro.

Sim, explicar. Porque os apupos e os palavrões não dizem respeito somente ao calor de uma partida de futebol. Eles são reflexos da vocação do brasileiro em malhar o Judas, não por acaso uma tradição resistente no país, na véspera da Páscoa. Parece-me cada vez mais claro que nós temos forte inclinação à crítica, à reclamação, à destruição. Qualquer um vira alvo fácil, vide as redes sociais.

Um SUSPEITO de crime vira criminoso condenado, massacrado e, se possível, desterrado, assim que seu nome ganha as páginas dos jornais e os portais da internet. Não há presunção de inocência, direito à resposta, a busca pelo famoso “outro lado”. Ninguém quer ouvir o que o suspeito tem a dizer. Até o advogado que se dispõe a defendê-lo é encarado como tão “criminoso” quanto, muito antes de qualquer veredicto. E isso só por fazer o seu trabalho e dar a alguém o direito de defesa.

A vaia fácil e as ofensas públicas. Identidade nacional?

A vaia fácil e as ofensas públicas. Identidade nacional?

Não vejo coincidência, portanto, nos sucessivos casos de “justiçamento” divulgados pela mídia nos últimos meses. Pessoas que, em grupo, adquirem a coragem necessária para perpetrar homicídios de indivíduos que não se sabem inocentes ou culpados. É a justiça sendo feita pelas “próprias mãos”, como na Idade Média. E, contra o batido argumento do “falta policiamento” e “o estado não fornece segurança”, lembro que nos casos de homicídios nenhuma pessoa fez o trabalho de polícia, que seria encaminhar o suspeito até a delegacia, embora houvesse condições para tanto.

Em um país onde as críticas são fáceis, e raras são as iniciativas de indivíduos em busca de soluções verdadeiras para problemas coletivos, compreensível que um político ou mesmo um jogador de futebol vire alvo de ofensas pessoais. Restrinjo o tema ao caso esportivo porque o presidencial exigiria outro texto.

E rejeito toda a pressão feita sobre os jogadores da seleção brasileira, quase acuados para conquistar o hexacampeonato. Esta pressão não é fruto da “paixão nacional” do brasileiro pelo futebol. O esporte favorito do brasileiro é vencer. Não há preferências por modalidades.

Assim, o vôlei vira a mania nacional se equipe do técnico Bernadinho estiver arrasando adversários. E para-se tudo para ver a final olímpica. Se Ayrton Senna deixa todos os rivais para trás, o Brasil vira o país da Fórmula 1. E não aceitamos algo menor que um tricampeão. Então, se Felipe Massa perde o título na última volta… “Como tá chata essa corrida, né?”. Pronto, hora de encontrar um novo esporte para superar as frustrações nacionais.

A pressão – que, justiça seja feita, foi iniciada pela própria comissão técnica da seleção – é sintoma da ânsia de criticar. A preferência pela destruição, em detrimento da construção. As piadas, depois da derrota acachapante diante da Alemanha, são apenas revolta atenuada, mascarada pelo riso.

Após a estrondosa queda da seleção, a pressão, estágio anterior da crítica, só mudou de alvo. Nas ruas, os futuros representantes do Brasil nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, já ouviam cobranças do tipo: “Ei, vê se treina para não fazer fiasco na Olimpíada, que nem a seleção na Copa, hein!”. Relato verídico de ao menos um atleta brasileiro com potencial de conquistar o ouro daqui a dois anos.

Como se vê, a pressão é fácil, a crítica, corriqueira. E só citei a área de esportes aqui. Poderia me alongar para outros setores da sociedade. Difícil é concentrar energia em busca de soluções para os males do nosso país.

Legado

O pessimismo deu lugar à empolgação quando a bola rolou nos gramados da Copa. Muitos elogios ao desempenho técnico, tático e físico. Dos que gostam de futebol, raros se decepcionaram. Mas ainda é muito cedo para falar do legado do Mundial ao país, de algo que vá além das obras de mobilidade urbana (completas e incompletas).

Acredito que há ao menos um grande legado para a própria história do Mundial. As manifestações de “Fora Copa” e “Fora Fifa” acenderam o alerta na entidade que rege o futebol mundial. Diante da insatisfação de muitos brasileiros com a realização da Copa aqui, principalmente em relação aos gastos públicos e aos benefícios concedidos aos organizadores (sempre exigidos dos países-sede do evento), a Fifa passou a repensar a forma como escolhe os candidatos a receber o Mundial.

Antes mesmo da Copa começar, o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, já indicava que a eleição para escolher o país-sede poderia ser precedida de plebiscitos pelos futuros candidatos a sediar o evento. Assim, a população seria ouvida antes de as autoridades chancelarem qualquer candidatura.

O plebiscito já é realidade em alguns países, mais desenvolvidos, não por acaso. Recentemente, as populações de Munique e Estocolmo disseram não à candidatura das cidades a receber os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. Em Copa do Mundo, isso ainda não aconteceu.

Mas, com a força das manifestações do povo brasileiro, as futuras Copas poderão passar por um criterioso processo de aprovação nacional antes da oficialização das candidaturas. Talvez esse seja o grande legado da Copa do Mundo do Brasil para o mundo.