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Mais vida a Van Gogh e Monet

Quem nunca se flagrou diante de um belo quadro tentando imaginar como seria aquela imagem se houvesse movimento na tela? De tão realistas, algumas cenas do cotidiano retratadas em grandes obras até parecem que vão saltar da moldura, dependendo do ângulo de observação.

Pois, para alguns especialistas, o movimento de um quadro virou apenas uma questão tecnológica. Nos últimos meses, animadores se dedicaram a dar “vida” a imagens famosas de telas do calibre de Van Gogh e Claude Monet.

Um dos pioneiros foi Luca Agnani, famoso por fazer projeções de vídeos em 3D ao ar livre em fachadas de prédios famosos em seu país. O italiano foi o responsável por dar movimento a quadros famosos de Van Gogh. O projeto chamado “Shadow” (sombra, em inglês) reúne 13 obras do pintor holandês e está retratado em vídeo abaixo.

Monet também virou alvo dos animadores. Sua obra impressionista “A Caminhada do Penhasco em Pourville” ganhou movimento graças ao trabalho do designer Alexander Kolomietz. No vídeo, o vento empurra nuvens de um lado para outro e faz balançar cabelos e vestidos das duas figuras femininas e a vegetação rasteira.

Algumas animações fazem lembrar as cenas de precioso apuro gráfico do filme “Amor Além da Vida”, que chegou a ganhar o Oscar de efeitos especiais, em 1999. Na fita, que conta com Robin Williams, os personagens entram e caminham dentro de pinturas até se “manchando” com as tintas das telas.

Há ainda designers que transformaram quadros famosos em cartoons, nem sempre com a graça pretendida. Cenas do cotidiano viram tragédias sem sentido, Napoleão Bonaparte fala com voz de criança e uma coroa de flores, em um quadro religioso, se torna uma cesta de basquete.

Abaixo o blog MentePlural selecionou as melhores animações:

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Contra a intolerância, mais cultura e menos egoísmo

Nuccio Ordine é um professor de literatura da Universidade da Calábria que vem chamando a atenção na Europa. O italiano se destacou em razão do livro “A Utilidade do Inútil”, no qual critica a valorização excessiva das atividades que geram lucro e o menosprezo às ocupações menos lucrativas, mas essenciais ao ser humano por seus propósitos nobres. Ele se refere, por exemplo, à função de professor e às artes, que podem nos transformar em pessoas menos egoístas.

O professor italiano Nuccio Ordine

Algumas das ideias do professor podem ser resumidas pelos trechos abaixo, retirados de uma entrevista concedida ao Estadão. Para quem se interessar, cito no fim o link do material completo publicado pelo jornal.

“A felicidade, como nos recorda Montaigne, não consiste em possuir, mas em saber viver. No meu livro, quis chamar a atenção sobre os saberes que hoje são considerados inúteis porque não produzem lucro. Sem a literatura, a filosofia, a música e a arte, nós construiremos uma humanidade desumana, violenta, formada por indivíduos capazes de pensar exclusivamente em interesses egoístas”

“(…) No universo do utilitarismo, um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca mais que uma poesia, uma chave-inglesa mais que um quadro, porque é fácil entender a eficiência de uma ferramenta, mas vem se tornando cada vez mais difícil entender para que servem a música, a literatura ou a arte”

“(…) Reduzir o valor da vida ao dinheiro mata toda possibilidade de idealizar um mundo melhor. Somente o saber pode fazer frente ao domínio do dinheiro, pelo menos por três razões. A primeira: com o dinheiro pode-se comprar tudo (dos juízes aos parlamentares, do poder ao sucesso), menos o conhecimento. Sócrates lembra a Agatão que o saber não pode ser transferido mecanicamente de uma pessoa a outra. O conhecimento não se adquire, mas se conquista com grande empenho interior.

A segunda razão diz respeito à total reversão da lógica do mercado. Em qualquer troca econômica há sempre uma perda e um ganho. Se compro um relógio, por exemplo, “perco” o dinheiro e fico com o relógio; e quem me vende o relógio “perde” o relógio e recebe o dinheiro. Mas, no âmbito do conhecimento, um professor pode ensinar um teorema sem perdê-lo. No círculo virtuoso do ensinar, enriquece quem recebe (o estudante), enriquece quem dá (quantas vezes o professor aprende com seus estudantes?).

Trata-se de um pequeno milagre. Um milagre – e essa é a terceira razão – que o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw sintetiza num exemplo: se dois indivíduos têm uma maçã cada um e fazem uma troca, ao voltar para casa cada um deles terá uma maçã. Mas, se esses indivíduos possuem cada um uma ideia e a trocam, ao voltarem para casa cada um deles terá duas ideias. Mesmo se em alguns momentos da história o saber não soube ou pôde eliminar por completo a barbárie, não temos outra escolha. Devemos continuar a crer que a cultura e uma educação livre são os únicos meios para tornar a humanidade mais humana”. 

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,democracia-liquida,1130732,0.htm

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O Diretor que Decepcionava Livros

Pôster do filme

“A Menina que Roubava Livros” não criou expectativa nos cinemas por causa do Oscar – recebeu apenas uma indicação. Também não protagonizou forte marketing antes de entrar nas salas brasileiras. Mesmo assim gerou ansiedade de fiéis fãs da famosa obra do escritor australiano Markus Zuzak.

Lançado em 2005, o livro fez sucesso entre público e crítica por contar com rara sensibilidade a história triste de Liesel Meminger, uma menina alemã (a ladra do título, claro) que sofre com a pobreza e as dificuldades vividas pelo seu país quando se vê na obrigação de morar com pais adotivos às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

A história conquistou leitores ao redor do mundo, principalmente em razão do narrador. É a própria Morte que reflete sobre as agruras da humanidade enquanto conta a trajetória da pequena Liesel, com quem se encontrou por três vezes.

O bom enredo, claro, virou filme em Hollywood, tão carente de histórias originais. Mas os fãs do livro devem se decepcionar com a película dirigida por Brian Percival. Não com o visual, exposto de forma precisa nas telonas, mas com a falta de sutileza na narrativa.

Percival se preocupou demais com a fidelidade na descrição das cenas e não deu a importância devida ao maior destaque do livro: a narrativa de uma história triste sem indulgências, mas com muita sensibilidade e sem a comum tentação de cair na pieguice.

Algumas sequências do filme são idênticas às narradas por Marcus Zuzak na obra de papel. Lembram até a exagerada precisão das primeiras cenas da saga Harry Potter. Assim como nestes filmes, o diretor de “A Menina” pouco se esforçou para adaptar no filme os acertos do livro, feito alcançado com competência nas últimas películas de Harry Potter, para ficar na mesma comparação.

Esta preocupação com a descrição do livro com certeza vai agradar aos fãs, que devem vibrar com a fumaça do trem atravessando a neve branquinha nos primeiros instantes do filme. No entanto, traz o problema de engessar o filme e não permitir uma melhor adaptação das nuances do livro.

Por si só, a fiel descrição apenas encantaria os fãs do livro, prolongaria a história e cansaria um pouco o público que não leu a obra. Mas logo esta preocupação dá lugar à mera pieguice. O diretor valoriza demais o sofrimento de Liesel e as dificuldades da família, contornadas no livro com certa habilidade por Hans Hubermann (interpretado com simpatia por Geoffrey Rush), pai adotivo da menina.

A todo custo o diretor Brian Percival busca as lágrimas do público. O melodrama contamina todas as sequências, incluindo a relação de Liesel com seu melhor amigo, Rudy Steiner. Teve até cena de despedida com um abreviado “eu te amo” nos estertores do filme, algo impensável para o autor da obra original.

Foi nesse aspecto que o diretor não cumpriu com a promessa de fidelidade ao livro. Colocou a pieguice em primeiro lugar e relegou ao segundo plano a sensibilidade da história, narrada com muito cuidado (e boas sacadas) pelo autor do livro. Para se ter uma ideia, no livro Zuzak avisa logo no início como será o fim da história de Liesel e sua família adotiva, sem lamúrios e chororô.

Daí o mérito do livro. Raros são os autores que conseguem narrar uma boa história, com os dramas e as tristezas da vida, sem resvalar na piedade e sem apelar para o lado emocional do leitor. É por essa razão que muitos enredos de grande potencial acabam se transformando em novelões, com muito choro e pouca reflexão.

No livro, Marcus Zuzak nos traz boa reflexão sobre o poder da palavra. No filme, Brian Percival só nos oferece um lencinho.

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A imagem do Oscar

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Não assisti a todas as obras indicadas ao Oscar, mas acredito que o fotograma acima seja o mais significativo dos filmes envolvidos na disputa deste ano.

A “gestação” não revela apenas o renascimento simbólico vivido pela personagem de Sandra Bullock, em “Gravidade”. Mas também pode ser lida como o ressurgimento do sci-fi, gênero cinematográfico tão vilipendiado nas últimas décadas. Para muitos, o filme do mexicano Alfonso Cuarón se equipara a “2001, uma Odisseia no Espaço”.

Em tempo: “Gravidade” voltou aos cinemas nesta semana depois de receber 10 indicações ao Oscar. Um dos raros filmes no qual o 3D é ferramenta importante para a apreciação da história.

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2014 também vai dar o que falar

O ano de 2013 foi tão denso em acontecimentos importantes que poderia se dizer, para ficar em uma expressão manjada, que o ano ainda não acabou. Muito do que ocorreu prosseguirá exibindo consequências e oferecendo desdobramentos.

Por essa razão, o blog MentePlural resolveu fazer uma lista de palavras e assuntos que serão temas de reportagens e debates acalorados nas redes sociais nos próximos 11 meses. Confira:

Manifestações – Os eventos de junho nas ruas do Brasil devem recrudescer em 2014, segundo analistas políticos. Em parte por causa da Copa, em parte em razão das eleições presidenciais. De fato, as manifestações abriram raro precedente na história brasileira. Mas não devem repetir neste ano a força de 2013. Como vinha acontecendo no segundo semestre, os protestos se restringiam a grupos específicos, sem maior poder de mobilização – pelo menos não a ponto de reunir 200 mil pessoas, como foi registrado no Rio de Janeiro.

Exemplo disso foram as previsões de tumultuadas manifestações para o 7 de setembro, algo não confirmado pelos fatos. Dilma Rousseff discursou diante de paradas militares sem ser importunada. O palpite do blog é de que manifestações devem preocupar governo e Fifa até o início da Copa em junho. Depois disso, independentemente do resultado do Mundial, os protestos devem ser minados pela fragmentação das opiniões partidárias, às vésperas das eleições.

Copa do Mundo – Poucas semanas após a Copa das Confederações, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, admitiu que cogitou cancelar a competição-teste em razão dos protestos – carros da Fifa chegaram a ser apedrejados em Salvador, tumultos atrapalharam a chegada de torcedores aos estádios em pelo menos duas capitais.

No ano da Copa do Mundo, as demonstrações de indignação devem dar lugar à expectativa pelo desempenho da seleção de Luiz Felipe Scolari nos gramados brasileiros. Neymar, lesões, Neymar, lista de convocados, Neymar, Bruna Marquezine, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e os palpites furados de Pelé devem concentrar as atenções. O país voltará a se unir, como nas manifestações de junho, mas por outros objetivos. Notícias sobre gastos públicos, atrasos em obras e falhas de infraestrutura serão rapidamente ofuscadas por notas supostamente jornalísticas sobre bastidores das outras seleções e de outros craques, como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo.

Eleições – A polarização entre PT e PSDB, ou esquerda e direita, alcançará pico histórico nas querelas virtuais do Facebook e Twitter. Opiniões serão tratadas como fatos incontestáveis, textos de comentaristas serão encarados como grandes reportagens. Haverá pouco filtro. E os internautas vão sofrer com doses cavalares de intolerância e insultos gratuitos em suas linhas do tempo e também nos fatídicos “comentários dos leitores”. Minha aposta para a eleição? Muita gritaria e pouca mudança. Refiro-me aqui ao poder legislativo, um dos alvos dos protestos.

Economia – Inevitavelmente o clima eleitoral tomará conta do debate econômico: liberais x conservadores, liberal-democracia x social-democracia. Prepare-se para a guerra de números. O país cresceu ou não cresceu? Desemprego aumentou? E a inflação? IPCA ou IGP-M? Índice do mês ou acumulado dos últimos 12?

Políticos, analistas e comentaristas (disfarçados de jornalistas) vão citar as mais inacreditáveis fontes para defenderem suas teses. O breve duelo entre Luiza Trajano e Diogo Mainardi é só uma pequena mostra do que vem por aí. Aguente firme! Discernimento e informação serão a chave para analisar o noticiário e tirar conclusões condizentes com a realidade econômica do país.

Rolezinho – O tema que encerrou 2013 continuará dominando 2014: o famoso rolezinho. O viés político, de luta de classes, levou o assunto das redes sociais para cafezinhos e conversas de bar. As opiniões variam do “tem que prender todo mundo” ao “tem que invadir mesmo esses templos do capitalismo”. Difícil ficar alheio ao tema.

O assunto foi bastante debatido na imprensa nos últimos dias, mas acho que ainda não se esgotou. Afinal, os adolescentes não vão desistir de ir ao shopping só por causa de toda essa repercussão. Não vou dar minha opinião sobre o rolezinho. Sugiro a leitura deste texto esclarecedor aqui.

Selfie… não, agora é Braggie – A palavra do ano de 2013 deve ser substituída por um vocábulo tão revelador quanto no terreno da vaidade humana. As fotos Braggie, postadas com cada vez mais frequência nas redes sociais, não se restringem à figura da pessoa (Selfie). Elas mostram principalmente o contexto da imagem com o nobre objetivo de… causar inveja nos demais. Simples assim. E aí tome-se fotos em praias, restaurantes (com pratos de dar água na boca, evidentemente) e muitas poses sexy. Exibição aqui é a regra.

Perspectivas um tanto negativas para 2014? Nem tanto.

Prometo que o próximo post será mais otimista. 😉

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“A Vida que vale a pena viver”

Virou convenção (e até clichê) encarar o fim de ano como oportunidade para avaliar o que foi feito dos últimos 365 dias de nossas vidas. Reflete-se sobre ações, atitudes, palavras, decisões. Todas já vivenciadas e, portanto, fora do nosso alcance. Retrospectiva feita, é hora de pensar sobre o futuro. Vamos decidir se nossos próximos 365 dias devem ser como os vividos nos últimos 12 meses.

Para tanto, o blog MentePlural sugere neste início de ano uma reflexão a partir de uma rica palestra do professor Clóvis de Barros Filho, jornalista, advogado, docente da USP e (por quê não?) filósofo. Clóvis ficou famoso em 2013 ao fazer sucesso em entrevista para o Jô Soares. Sua breve e intensa explanação sobre vocação na TV conquistou milhares nas redes sociais e levou o professor a outros programas da Globo.

O conteúdo das rápidas aparições na TV foi um pálido resumo da palestra abaixo. Nela, Clóvis faz profunda análise sobre a modernidade, do trabalho ao relacionamento, e apresenta os diferentes conceitos de amor elaborados por grandes mestres ao longo da história da humanidade. Não se assuste com o tempo de 1h12min da palestra. Vale cada segundo!

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Em busca da mudança

Ídolo da música folk, o cantor e compositor Cat Stevens fez shows no Brasil na última semana. Aos 65 anos, o britânico se apresentou ao público de São Paulo e do Rio de Janeiro com o nome de Yusuf Islam, que passou a adotar em 1978, ao se converter ao Islamismo. Conhecido por seu estilo engajado, ele não deixou de destacar os valores revolucionários em sua passagem pelo Brasil. Mas surpreendeu ao pregar uma rebelião diferente, no “espírito” das pessoas.

Sua revolução apareceu na entrevista que concedeu ao jornalista Jotabê Medeiros, publicada n’O Estado de S. Paulo. Questionado sobre se estávamos vivendo um momento revolucionário do mundo, ele comparou o século XX com o XXI e pediu uma nova postura às pessoas.

“A diferença para hoje é que, naquela época, era tudo mais claro, mais preto no branco, uma oposição entre o pensamento capitalista e o pensamento comunista. Hoje, há um grande borrão entre a realidade e a realidade virtual. É uma infeliz situação na qual as pessoas pensam que a mudança virá pela via virtual [refere-se às manifestações que têm início na internet]. Eu acredito que a mudança só virá quando as pessoas mudarem a si mesmas. Não acho que você pode mudar o mundo apenas pela via social. Nós somos parte espírito, e eles [pessoas no poder] não podem controlar esse aspecto da existência. Algo no espírito humano se perdeu. Ou mudamos ou não haverá solução real.”

cat

Cat Stevens, ou Yussuf Islam

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O Maestro e o Roqueiro

Ennio Morricone é um dos maiores compositores da história da música. O italiano de 85 anos, e 67 de carreira, ficou mais conhecido pelas trilhas de cinema. Mas até hoje comanda grandes orquestras pelo mundo. Unanimidade, é festejado por crítica e público.

Mike Patton já pode ser considerado uma das lendas do rock. Vocalista da banda Faith No More, o norte-americano tem 45 anos e está sempre disposto a encarar um novo desafio. Por sua voz versátil, é considerado gênio por muitos. Sucesso de crítica, levantou o público brasileiro neste ano quando usou seu português macarrônico para soltar um “eu sou cachaceiro” no meio de um show.

Ennio Morricone e Mike Patton. O que estes dois músicos tão diferentes poderiam ter em comum, além do talento e da paixão pelo trabalho? No dia 24 deste mês, a dupla terá em comum o palco montado no Estádio Bicentenário de la Florida, em Santiago, no Chile. Sim, maestro e roqueiro farão uma improvável apresentação conjunta, que já está sendo considerada histórica.

O show, claro, será uma incógnita. Eles nunca estiveram juntos, ainda que Patton tenha em Morricone um dos seus grandes ídolos. A expectativa, mesmo assim, já é grande. A união de duas figuras tão distintas atiçou a curiosidade dos chilenos. Os ingressos, que variam de R$ 100 a R$ 1.110, estão praticamente esgotados.

Ennio Morricone e Mike Patton

Ennio Morricone e Mike Patton

Mais curioso do que este improvável encontro musical somente a forma como o show foi planejado. Tudo começou com uma entrevista de Mike Patton a um canal de TV chileno, chamado Septimo Vicio, dedicado a cinema e música. Naquela conversa, ainda em 2011, o músico revelou ao apresentador Gonzalo Frías seu sonho de fazer uma apresentação com Morricone.  

Com seu jeito informal, o cantor tratou o sonho como algo inalcançável e até ironizou. “Eu também poderia ir para a lua, pendurado num balão”, disse, com desdém, girando a mão esquerda no ar. “Eu adoraria conhecê-lo algum dia. Seria meu único… desejo. Trabalhar com ele seria incrível. Já imaginou?”.

Sonho virando realidade

Patton realmente não imaginava que dois anos depois teria um show agendado com o maestro italiano. O sonho se tornou possível quando Frías e a produção do seu programa apresentaram a Morricone um disco solo de Patton, chamado “Mondo Cane”. Nele, o americano canta sucessos pop da Itália dos anos 50 e 60 acompanhado por uma banda de 15 membros e uma orquestra de 40 músicos.

Morricone não escondeu a surpresa ao ser apresentado à obra. Admitiu até que não conhecia Patton. Mas, curioso para se apresentar ao lado do versátil cantor americano, aceitou o desafio, graças à intermediação de Frías e do produtor Jorge Hurtado, também chileno. A “união de monstros musicais” estava garantida.

O desafio deverá exigir bastante dos dois músicos. Mas se engana quem pensa que Patton não estará à altura da missão. O líder do Faith No More é uma das vozes mais versáteis do rock. Para alguns críticos musicais, Patton é um gênio porque pode levar suas cordas vocais do death metal ao jazz, do grave ao agudo, pode assumir figura de rapper ou crooner.

Entre seus projetos alternativos estão parcerias com Norah Jones, Bebel Gilberto e Massive Attack. Sua vocação para a experimentação musical o levou até a dublar filmes e jogos de vídeo game.   

No dia 24, sua capacidade de adaptação será testada ao lado de 250 músicos, liderados pelo grande Morricone, autor de trilhas de mais de 500 filmes e considerado um dos maiores músicos da história.

O maestro tem no currículo prêmios como o Oscar e trabalhos ao lado de grandes diretores do cinema, como Sergio Leone, Brian De Palma e, mais recentemente, Quentin Tarantino. Em Santiago, apresentará alguns dos seus maiores sucessos, como as trilhas de “Once Upon a Time in America”, “The Legend of ‘900”, “The Good, the Bad and The Ugly” e “Cinema Paradiso”. 

Anúncio oficial do show

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Confira abaixo grandes momentos de Morricone e Patton:

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O Prêmio Nobel e a Cerveja

Peter Higgs comemora o Nobel

A semana passada foi marcada pelo anúncio dos vencedores do Prêmio Nobel. E uma imagem se destacou dentre todas.  Nela, Peter Higgs, um senhorzinho tímido apresentado por este próprio blog há mais de um ano, deixou a timidez de lado e comemorou seu merecido prêmio erguendo uma boa cerveja britânica.

Com sorriso aberto, ele celebrou o Nobel de Física que condecorou sua teorização sobre o hoje famoso Bóson de Higgs, conhecido também como “Partícula de Deus” – como este blog destacou em julho do ano passado, o físico escocês abomina as duas denominações.

Ao que parece, Higgs só deixou a timidez de lado por pouco tempo. Após levar o prêmio, ao lado do físico belga François Englert, ele anunciou que pretende se aposentar no próximo ano, quando terá 85 anos.

Significa que o recluso cientista deve ficar ainda mais recluso em sua cidade, a capital Edimburgo. (Em tempo, o escocês não tem telefone celular e precisou ser avisado por um vizinho que era o novo Nobel de Física, na semana passada). Leia mais sobre o cientista aqui.

Cerveja

A comemoração de Higgs teria sido perfeita se ele tivesse erguido uma garrafa de Bóson de Higgs. Garrafa? Sim, a descoberta do cientista virou uma marca de bebida produzida pela cervejaria Hopfenstark, de Montreal.

Segundo o proprietário da empresa canadense, Fred Cormier, a cerveja é uma mistura do tipo “Berliner Weisse” com o “Belgian saison style”. E já estaria fazendo sucesso entre os entendidos do assunto.

Cormier explicou que a cerveja foi realmente inspirada na descoberta de Higgs, comprovada pelo Acelerador de Partículas (CERN), no ano passado. Assim como o Bóson dá massa a outras partículas, a nova bebida “dá peso a outras cervejas”, teoriza o criador do líquido “intelectual”.

A cerveja Bóson de Higgs

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Carta de um Saramandista

Caro Dias Gomes,

Me permita lhe chamar assim, como a um amigo, apesar do ousadismo de chamar de amigo quem é tratado como Santo na grande própria obra. Pois que seja Santo Dias Gomes, para evitar escrupulice e pecadismo.

Mas vou deixar os circunlóquios pra trasmente. Sem apressamento, vou ficar de letrismos para demonstrar deverasmente toda a minha admirância e respeitamento por sua obra. Por Saramandaia, o Senhor Santo é merecedente de elogios.

É merecedente por toda a sua ebulição criativa. Como se fosse milagrismo, criou toda uma cidade – marcada por um conflito entre os cachacistas –, e a povoou com figuras humanas e entes sobrenaturais, às vezes mais humanos que os primeiros. Todos com seus conflitos, desejos, vontadismos.

Aproveitou as histórias populares e até figuras de linguagem para apresentar personagens que põe o coração para fora. Literalmente. Sentem o corpo queimar, comem até explodir, têm raízes em seus cantos mais íntimos.

Quase todos se ressentem dos seus diferenciamentos. Não enxergam as vantagens de ter asas. Podem realizar todos os dias o sonho de todos aqueles que já se viram voando. Sofrem porque encaram os atacamentos dos criticadores. São chamados de esquizitóides.

E são peça fundamental de toda a mensagem da historiação. Pois que seus exagerismos em Saramandaia têm fundamento. São necessários para mostrar que os diferenciamentos são naturais e inerentes ao humano, alado ou não, com ou sem raízes, com formigas no nariz ou tremores pelo corpo a cada mudancice climática.

Sua diversionice ajudou a combater os preconceitos contra estes diferenciamentos entre as pessoas. Se na fantasia pode-se aceitar uma união casamentória de uma mulher de vida facilitada com um lobisomem, por que ainda se combate a cor, a sexualidade e o religiosismo alheio na vida real?

Triste é pensar que o Senhor Santo invencionou toda essa historiação há quase quatro décadas. E mesmamente nestes dias ainda se fica de bobice e mexericância com a vida do outro. O Senhor Santo ficaria treschapado se não tivesse desvivido.

Mas, sem desmudar o assunto, reforço minha gratitude pelos bons momentos de entretenição que o Senhor Santo me proporcionou, a citar seu passadismo, em “O Bem Amado”, e a lembrar atémente linguagismos tão vocabulescos quanto os do mestre João Guimarães Rosa. Aondemente o Senhor Santo estiver, minhas gratitudes!