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Bastidores da Copa do Mundo

Do sofá de casa ou da cadeira da arquibancada é quase impossível perceber. Uns mais argutos até supõem a dificuldade, mas não vislumbram os obstáculos enfrentados pelos jornalistas numa cobertura de Copa do Mundo. Realmente não é das mais fáceis e não apenas pelo volume de trabalho. Jornalista é um ser já acostumado a ralar. Falo das limitações inerentes a um torneio que reúne pessoas de todos os cantos do planeta. E, com tanta diversidade, às vezes o futebol é o único ponto em comum.

Bancada de uma entrevista coletiva no Itaquerão

Bancada de uma entrevista coletiva no Itaquerão

Comecemos pela língua. Reza a lenda que o inglês é o esperanto que deu certo. O idioma universal, compreendido por todos e por tudo. Em uma Copa, isso é mito. Não espere ver jogadores de seleções da Europa falando inglês fluentemente. Nem mesmo aqueles que sempre atuaram no continente, o território mais cosmopolita do futebol mundial. Até os badalados jogadores da seleção brasileira – pelo menos eram até o fatídico 7 a 1 – pediam fones de ouvido para acompanhar a tradução simultânea diante de perguntas em inglês. David Luiz, sempre ele, era uma das poucas exceções, por jogar na Inglaterra nas últimas temporadas.

O auxílio dos fones, tanto para jogadores quanto para jornalistas, só faz parte do protocolo nas entrevistas oficiais da Fifa, na véspera e após o jogo. E em poucas seleções, caso do Brasil, que utilizava a oportunidade para divulgar um dos seus patrocinadores, uma escola de idiomas. Nas demais, rara era a presença de tradutores. Estou falando de seleções como Japão e Bósnia-Herzegovina. Imagine chegar em um treino da Rússia e descobrir que simplesmente não há qualquer sistema de tradução. O que fazer? Aconteceu com um colega e ele precisou “se virar nos 30”: conheceu torcedoras russas que falavam inglês e escreveu uma matéria com base nas expectativas dos fãs daquele país. Boa saída!

Não foi o único problema na comunicação. Ao conhecer jogadores e técnicos estrangeiros, você chega à conclusão de que não importa a nacionalidade, jogador de futebol é igual em qualquer canto do mundo. O discurso é o mesmo, desde a eterna “busca pelo resultado positivo”, passando pelo “respeitamos o adversário, mas estamos confiantes na vitória” até o “vamos dar 110%”, com suas raras variações.

Discurso universal

Afora o discurso ensaiado e moldado por assessores de imprensa, há o tempo das entrevistas, geralmente muito rápidas, e a quantidade de respostas monossilábicas. Esqueça as respostas alongadas de um Oswaldo de Oliveira ou informais de Abel Braga ou Muricy Ramalho, o jeito bonachão de Felipão. Você não vai tirar mais do que duas ou três frases seguidas de Roy Hodgson, treinador da Inglaterra, ou Alejandro Sabella, da Argentina. Raros são os Louis Van Gaals, sem papas na língua, sem medo de dizer o que pensa. Sincero e até provocador. São exceções em uma Copa. Em um Brasileirão, ainda são a regra.

Para quem está no sofá de casa e curte acompanhar repercussões e todos os detalhes de uma Copa, as entrevistas coletivas de técnicos são a única coisa que fica a dever aos jogos do Brasileirão, Copa do Brasil e estaduais. A facilidade para obter entrevistas exclusivas com atletas e técnicos também é um diferencial nas competições nacionais. E lá está o repórter da TV na sala de estar do ídolo corintiano, ou conhecendo os hábitos alimentares da família do artilheiro palmeirense. Ou perguntando à ciumenta esposa do zagueiro flamenguista se a marcação dela também é forte. Na Copa, nem sonhe com isso. A blindagem às seleções chega a ser incansável de tão profissional. Falo por experiência própria. Tentei oito exclusivas, só consegui uma. Ossos do ofício.

O mais próximo de uma exclusiva que um jornalista pode ter é o breve espaço para perguntas ao fim da partida. É a famosa zona mista, onde jogadores percorrem um cercadinho de algumas dezenas de metros, apinhado de repórteres por todos os lados. Apinhado mesmo. Sobram braços com gravadores e celulares diante de Luis Suárez, o artilheiro que antes de morder o zagueiro italiano destruiu a Inglaterra no Itaquerão. O jornalista mais próximo do cercadinho foi praticamente amassado pelos demais. Mas nem tudo é disputa. Com meus meros 1,63 m de altura, contei com a ajuda de um desconhecido para levar meu gravador até a boca do atacante quando meus braços mal ficavam a um metro do jogador. Jornalismo também é companheirismo.

Não tem como ser diferente. Como cobrir in loco uma partida que vai encher um estádio com 65 mil pessoas, incluindo a presidente e chefes de estado de vários cantos do mundo, celebridades, eternos ídolos e quase famosos? Na abertura da Copa, em São Paulo, havia até uma experiência científica a ser realizada no gramado (falarei disto em próximo post). Cerca de 3 bilhões de pessoas, quase metade da população mundial, assistiu a tal evento pela TV.

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Grito de gol

Posso dizer que foi um dos dias que mais trabalhei na vida. E, entre um e outro dos 10 textos que devo ter redigido naquele dia, tive a oportunidade de assistir parte do jogo da arquibancada, junto à torcida, justamente quando Fred caía na área e o árbitro amigo marcava pênalti. Difícil descrever a sensação de estar no meio de 60 mil pessoas comemorando o gol da virada em uma partida de Copa em casa. Eu estava a cerca de 8 metros do gramado. Incrível!

É o bônus que faz valer a pena o trabalho árduo. Porque a essa altura do jogo minha cabeça já girava em dor aguda. E só algum lanche para aliviá-la antes do apito final, e da maratona de entrevistas. E foi quando nos deparamos com as limitações do “deixar para a última hora”. Com a preparação acelerada, os estádios tiveram pouco tempo para eventos-testes, principalmente o Itaquerão. Resultado: não havia mais comida nas lanchonetes do estádio no segundo tempo do jogo. Me restou um sorvete daqueles Serenata (a Garoto é uma das patrocinadores do evento), a um custo módico de 10 reais.

Sim, o padrão Fifa valia também para o bolso. E a padronização dos valores, aliada à exclusividade da venda dos produtos dos patrocinadores, gerava bizarrices como uma garrafinha de água, de 500 ml, a 6 reais. O almoço, supostamente executivo, custava 32 reais. Coca Cola, dos famosos copos, era 8. Ao apresentar o valor da garrafa de água, a vendedora da lanchonete não escondeu o constrangimento. “Sabe como é, é o padrão Fifa”, respondeu-me, olhando para baixo.

Na parte interna, é inevitável mencionar a beleza do novo estádio corintiano. Como alguns disseram, até em tom de crítica social, a arena parece um shopping. Há diversas escadas rolantes e áreas VIP, que mais se assemelham a praças de alimentação de um shopping center. O famoso mármore está lá em todos os cantos dos banheiros bem acabados.

Só não se pode dizer o mesmo da locomoção dentro do estádio. Jornalistas se movimentavam com frequência porque o acesso às tribunas era no nono andar. A sala de imprensa ficava no terceiro. E a sala de coletiva e zona mista, no primeiro. Haja elevador para tanto profissional subir e descer. Mas não havia. As filas em frente aos elevadores lembravam os bancos de algumas décadas atrás. Muitos jornalistas perderam quilinhos subindo e descendo escadas.

Justo dizer que a organização dentro do Itaquerão foi evoluindo a cada partida. Passado o sufoco da abertura, quando havia até gente sem ingresso sentado nas cadeiras das arquibancadas, o estádio ganhou em fluidez nos serviços e atendimentos a jornalistas e torcedores.

O autor do blog na cobertura da Copa do Mundo

O autor do blog na cobertura da Copa do Mundo

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