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Entre lojas e camelôs, o discreto “oásis” da 25 de março

Entrada da Igreja Ortodoxa da Anunciação de Nossa Senhora

Cercada por lojinhas de presentes, camelôs alvoroçados, vendedores com microfones em punho e buzinas de carros, a Igreja Ortodoxa da Anunciação de Nossa Senhora quase passa despercebida pelas pessoas que buscam o comércio intenso da Rua Basílio Jafet, a poucos metros da turbulenta rua 25 de março, epicentro do mercado informal de São Paulo. A discreta Igreja se resume a duas espessas portas de madeira no térreo de um prédio comercial e tem como vizinhos duas lojas de tecidos, afora, é claro, as barracas improvisadas na calçada logo em sua entrada.

Mais antiga igreja Antioquina do País e possivelmente o primeiro templo de origem ortodoxa erguido em uma capital brasileira, a centenária igreja só se destaca das lojas vizinhas pela bela fachada, em formato de arco. E pelo letreiro esculpido em pedra, acima da entrada, mas quase encoberto pelas lonas das barracas.

“O que funciona aqui?”, pergunta, curiosa, a funcionária pública Maria Celestina Guimarães ao constatar um corredor silencioso entre duas lojas no Edifício Nossa Senhora da Natividade. Se por fora o prédio não lembra uma igreja tradicional, por dentro, o templo cristão possui até um pequeno mezanino. O corredor, com cerca de 20 metros de extensão, é decorado com imagens de santos. Ao fim do trecho, o pé-direito se torna mais alto, com cerca de 8 metros, e surge o altar, à direita, e os bancos para os fiéis, à esquerda.

A localização em um prédio comercial, no entanto, espanta os visitantes. Nem sempre foi assim. Inaugurada em 1905, a Igreja Ortodoxa da Anunciação de Nossa Senhora possuía uma arquitetura tradicional, com cúpula e até sino. O templo foi erguido com as doações dos imigrantes árabes que moravam na região, mas os responsáveis pela Igreja não queriam depender apenas dos recursos dos fiéis.

No final da década de 30, ela foi reformada com o objetivo de “recortar” a cúpula para que se pudesse erguer seis andares sobre o templo. O aluguel dos imóveis deu independência financeira à instituição. “Eles não sabiam se os filhos continuariam a sustentar a Igreja. E se tivessem que fechar as portas?”, questiona o padre Dimitrius Attarian, da Igreja Católica Apostólica Ortodoxa Antioquina, proprietária do prédio.

Embora afirme desconhecer o valor obtido com os aluguéis, o religioso explica que os recursos mantêm a Arquidiocese de São Paulo, incluindo a estrutura do templo, da Catedral, no bairro Paraíso, o clero e os funcionários. Parte da renda também é utilizada como fundo de caixa para custear reformas, como a que foi realizada na própria Igreja da Rua Basílio Jafet, há sete meses.

Interior da modesta igreja ortodoxa localizada no epicentro do comércio popular de SP

Interior da modesta igreja ortodoxa localizada no epicentro do comércio popular de SP

Novo Público

A Catedral materializou o temor dos responsáveis pela igreja localizada no centro da cidade. Ao enriquecerem, os árabes que sustentavam o templo se mudaram para bairros mais nobres, o que exigiu uma nova sede, fundada em 1958. Por consequência, a Igreja Ortodoxa da Anunciação de Nossa Senhora perdeu fiéis, o que se agravou nas décadas seguintes em decorrência da degradação do centro da capital. Padre Dimitrius atribui essa deterioração à própria saída dos árabes da região. “Os mascates deram lugar aos ambulantes. As casas foram substituídas por cortiços”, afirma.

A nova igreja concentrou as atividades da arquidiocese, o que resultou na mudança de público do local. Atualmente o templo é visitado por pessoas que estão de passagem pelo comércio, por curiosos e vendedores da região. “É um pequeno oásis religioso no meio do turbilhão”, conclui Dimitrius. O visitante pode obter um momento de paz, apesar do burburinho da rua a poucos metros do altar, garante o religioso.

O barulho dos vendedores, dos carros e dos passantes não atrapalha a realização da missa às quartas-feiras, pela manhã. “Se alguém incomodasse, eu faria um acordo com os ambulantes. Não vou pedir para tirarem eles dali”, diz o padre. O horário incomum do ritual também se deve à mudança de público. De acordo com o padre, responsável pelas celebrações, poucos fiéis ortodoxos moram na região. “Se fosse no final de semana, não iria ninguém”, admite. Apenas 20 pessoas costumam participar do ritual. Metade são católicos romanos. “Há mais católicos fiéis que ortodoxos”, revela.

Para Dimitrius, a importância do templo está em sua história. “Os maiores representantes da Igreja Antioquina brasileira, como políticos, empresários, magnatas e artistas foram batizados lá”, recorda. Toda a primeira geração de imigrantes esteve ligada ao local. Por essa razão, o religioso nunca pensou em transformar a Igreja em mais uma loja do prédio comercial. “Seria um tapa na cara de quem foi batizado lá”. No entanto, o padre admite que os fiéis mais antigos deixaram de visitar o local. “Ninguém vai mais lá”, lamenta o membro de uma comunidade estimada em 500 mil pessoas somente na capital.

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