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A busca de Marcel Souto Maior pela vida e pela morte

França. No final do século 19, um homem de classe média, dedicado ao trabalho intelectual, investigava fenômenos que surpreendiam a sociedade. Seu nome era Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido pelo codinome Allan Kardec.

Brasil. No final do século 20, um homem de classe média, dedicado ao trabalho intelectual, investigava fenômenos que vinham chamando a atenção da sociedade. Seu nome é Marcel Souto Maior.

Em sua investigação, o professor Kardec se convenceu da suposta veracidade dos fenômenos que vieram a ser chamados de espíritas. Escreveu cinco livros e lançou uma revista para estudar e divulgar o Espiritismo.

O jornalista carioca Marcel Souto Maior

O jornalista carioca Marcel Souto Maior

Quase 150 anos depois, o jornalista Souto Maior refez os passos do francês, leu suas obras, investigou sua vida e os ditos fenômenos espíritas. Escreveu uma biografia do médium mineiro Chico Xavier. E não se convenceu. Mas segue na busca por respostas.

“O tema que me move – e que está por trás das trajetórias de Chico Xavier e Allan Kardec – é ‘vida e morte’. Será que nascemos todos condenados à morte e vivemos em plena contagem regressiva rumo ao Nada, ou a vida é mais do que isto?”, questiona o jornalista carioca, em entrevista ao blog MentePlural.

“Seria o Homem apenas um cadáver adiado que procria?, segundo definiu o poeta Fernando Pessoa num dos seus poemas… Será?”.

A(s) Vida(s)

Motivado por estas profundas questões filosóficas, Souto Maior sentiu-se atraído pela trajetória de Chico Xavier nos anos 90. A biografia do mineiro – “As vidas de Chico Xavier” (2003) – foi sua porta de entrada na investigação do Espiritismo. Depois, foi mais fundo na pesquisa ao escrever o livro-reportagem “Por Trás do Véu de Ísis” (2004).

Durante meses, ele acompanhou centenas de sessões espíritas, entrevistou mães inconsoláveis em busca de mensagens vindas dos espíritos dos filhos mortos. E peregrinou por casas que recebiam médiuns famosos pela suposta garantia de veracidade das palavras emitidas aos ditos encarnados.

“Ao longo de 20 anos de pesquisas, eu me deparei com fraudes e me decepcionei com falsos médiuns, mas me surpreendi também com fatos e fenômenos autênticos”, admite o jornalista, que não esconde o ceticismo sobre temas espirituais, apesar da curiosidade.

Sua conclusão sobre o tema investigado? Nula. Nem confirma, nem descarta. Assim como Allan Kardec, Souto Maior é difícil de ser convencido. “Tento percorrer este território onde ‘vivos’ e ‘mortos’ se encontram com muito cuidado e com respeito também, como Kardec”, diz.

Sem acreditar nos fenômenos espíritas, ele diz admirar o trabalho de caridade desenvolvido por Chico Xavier, seguindo o mantra idealizado por Kardec. “Fora da caridade não há salvação”, repete Souto Maior.

“Fico sempre com um pé atrás diante de mensagens psicografadas e outros fenômenos, mas admiro profundamente o Espiritismo atuante, solidário, que salva e transforma tantas vidas, todos os dias, pelo mundo afora”, afirma.

O próprio jornalista ajudou a disseminar as ideias espíritas pelo “mundo afora” ao publicar um livro com mensagens edificantes de Chico Xavier, em 2005.

O Invisível

O retorno ao tema foi inevitável anos depois, enquanto seguia com seu trabalho na TV Globo (dirige programas de livrocunho jornalístico). Em 2010, sua biografia de Chico Xavier virou filme. E Souto Maior se viu novamente entre fenômenos que simplesmente não conseguia explicar, algo quase inadmissível para profissionais que tratam de fatos, movidos por eventos com rígida base empírica.

“Recebi uma mensagem psicografada de uma tia que eu nem sabia que tinha existido na minha infância – a “Tia Lourinha” – e fui surpreendido por um diálogo do meu filho (então com 4 anos) com o Invisível”, revela o jornalista, sem esconder a dificuldade de lidar com o acontecimento inexplicável.

“Foi uma ‘conversa’ em que meu filho cita nomes desconhecidos para ele e diz ao interlocutor (que só ele vê): ‘Quando a gente morre o corpo vai pro cemitério. O espírito vai pro céu, vai pro espaço’. São duas frases inexplicáveis para quem não tinha tido até então (quatro anos só…) nenhuma educação religiosa. Cemitério, céu, espaço, espírito… De onde vieram aquelas palavras?”, questiona.

Em seu primeiro encontro com o “Invisível”, segundo o jornalista, a “Tia Lourinha” avisou-o de uma “missão” a qual estaria incumbido: propagar as ideias espíritas. Ele, contudo, desconsiderou o anúncio. Mesmo assim, manteve as pesquisas, e com o mesmo rigor jornalístico do início.

Depois de se debruçar sobre a vida de Chico Xavier, o passo natural era investigar a vida de Allan Kardec, o criador da doutrina espírita. Desta vez, o jornalista precisou fazer viagens mais longas, até a França, para dar sequência a sua pesquisa que resultou no “Kardec, a Biografia”.

“Fiz quatro viagens a Paris e passei muitas semanas mergulhado no acervo de periódicos da Biblioteca Nacional da França. Lá consegui resgatar artigos de jornais e revistas do século 19 contra e a favor de Kardec e resgatar os principais ataques da Igreja e da Imprensa desferidos contra ele e o Espiritismo”.

Apesar das limitações de suas ferramentas de pesquisa, uma vez que Kardec não deixara filhos ou qualquer parente para contar sua história, o biógrafo saiu-se muito bem. Na obra lançada no fim do ano passado, o jornalista registra um equilibrado perfil do professor francês, com seus méritos e dificuldades, vacilos e acertos. E relata a postura investigadora de Kardec, que buscou e contestou seus achados, assim como fez o próprio Souto Maior em suas pesquisas sobre o Espiritismo.

E a Morte

Na França, do século 19, o professor se convenceu quanto à veracidade dos fenômenos. No Brasil, do século 21, o jornalista mantém a postura isenta, “infelizmente”, ressalta ele mesmo. “Ainda sou ateu, infelizmente”, afirma, ao destacar a última palavra da frase.

Com quatro livros dedicados ao tema, o jornalista dá sua “missão” por encerrada. Mas acaba sendo traído pela eterna busca. “Acho que minha pesquisa neste território se encerra com ‘Kardec’. É como se o ciclo iniciado há 20 anos com o retrato do médium mineiro se fechasse agora com o retrato do professor francês, principal referência, bússola mesmo de Chico”.

“Mas quem sabe? Não consigo garantir 100% que nunca voltarei ao tema.”

O retorno ao assunto está garantido ao menos por poucos meses. Seu livro sobre Kardec também vai virar filme, a ser lançado entre o fim deste ano e o início de 2015. Assim, Souto Maior terá que retomar as entrevistas e discussões sobre Espiritismo enquanto durar a divulgação – e repercussão – do novo filme.

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