Deixe um comentário

O Futuro da Humanidade, segundo Miguel Nicolelis

Esqueça a decepcionante exibição na abertura da Copa do Mundo. O experimento no Itaquerão não representa o potencial do Projeto Andar de Novo. E nem o investimento do governo federal foi por água abaixo, como muitos críticos se apressaram em dizer. O projeto é apenas mais uma das ricas consequências que poderão surgir das ideias do neurocientista Miguel Nicolelis, considerado um dos 20 cientistas mais importantes do mundo pela tradicional revista “Scientific American”.

Este paulistano de 53 anos tem conceitos e previsões muito mais avançadas que o exoesqueleto, a começar pelo que ele chama de “Idade das Máquinas”. O exoesqueleto seria apenas o embrião desta conexão entre mente e equipamento – software e hardware, numa linguagem mais específica – num caminho que levaria a downloads de pensamento, comunicações através de ondas cerebrais, curas de doenças como Mal de Parkinson e Alzheimer, entre outras previsões a la Hollywood.

nicolelis capa editada

Capa de “Muito Além do Nosso Eu”

A ficção científica está apenas na lembrança dos filmes. As ideias de Nicolelis têm mais fundamento nos estudos, embora ele não se esquive de fazer especulações sobre o futuro, do que nos estúdios. Estariam mais para “Robocop”, e seus conflitos de identidade, do que para os rivais de Will Smith em “Eu, Robô”.

Tudo começa com o exoesqueleto, chamado de interface cérebro-máquina. Em outras palavras, um robô controlado pelas ondas cerebrais de quem o “veste”, como aconteceu na abertura da Copa, em São Paulo. Um paraplégico conseguiu andar ao mandar comandos cerebrais para um computador que aciona um mecanismo robótico em suas pernas. Ao pensar que estava andando, o paciente emitia ondas que faziam seu exoesqueleto se locomover.

Para Nicolelis, o experimento, realizado no estádio e no seu laboratório diversas vezes, promove a libertação do cérebro humano. A mente, enfim, pode se desfazer das amarras do corpo para executar todo o seu potencial e virar o centro da humanidade.

“Esqueça o SMS e o Twitter. Neste futuro, centrado no cérebro, sua mente poderá se comunicar diretamente com a de seu colega no compartimento ao lado ou com milhares de seguidores em uma nova mídia, que denomino rede cerebral”, elabora o cientista, ao prever ainda o download de pensamento.

“O Flickr (popular programa de compartilhamento de fotos) será uma história do passado. A imagem mental da aurora avermelhada ou da equipe da sua cidade natal será transmitida por meio de ondas cerebrais de radiofrequência diretamente para um HD portátil de cinco bytes”, explica Nicolelis, no seu livro “Muito Além do Nosso Eu” (Editora Companhia das Letras).

O título da obra pode sugerir o fim da individualidade ou a socialização da mente. Mas o cientista garante que estes temores não têm fundamento. “A essência de nossa personalidade, o que faz de Nelson Mandela, por exemplo, um ser humano tão singular, nunca será transferida para um disco rígido”, afirma.

Reconhecido otimista, ele não vê motivos para previsões sobre futuros apocalípticos. Em sua avaliação, o desenvolvimento da conexão entre mente e máquina só trará benefícios ao homem. Mas mesmo nesta perspectiva a visão hollywoodiana não consegue ficar longe.

Lembra do filme “Avatar”? Pois esta seria uma das previsões de Nicolelis com grande chances de virar realidade no futuro. “Seres humanos aperfeiçoados poderiam marcar sua presença em vários ambientes remotos, por meio de avatares e ferramentas artificiais controladas apenas pelo pensamento. Das profundezas dos oceanos aos confins de supernovas, até mesmo nas pequenas fissuras do espaço intracelular em nosso próprio corpo, o alcance humano finalmente dará conta de ambições desmedidas de nossa espécie para explorar o desconhecido”.

Não haveria, portanto, mais barreiras diante do ser humano. Conhecer a mais profunda fossa oceânica ou um planeta de outra galáxia, através de naves comandadas pelo pensamento, ampliaria de forma incrível o conhecimento humano. Traria para a realidade cotidiana soluções diversas para os problemas mais comuns. Sem falar na possibilidade de comandar nanoferramentas dentro do corpo, com o objetivo de desvendar doenças.

O sonho de Nicolelis não parece estar tão distante assim. Ele revela que grandes empresas de tecnologia, como Intel, Google e Microsoft, já investem em divisões cérebro-máquina em seus grupos de pesquisa. Os principais obstáculos para a maior união entre mente e equipamento serão superados em 20 anos, avalia o cientista.

O neurocientista Miguel Nicolelis

Enquanto isso não acontece, ele questiona o futuro e provoca discussões ao deixar sua mente extrapolar os seus próprios limites para prever uma realidade ainda muito distante.

“Essa liberação completa do cérebro nos permite borrar, ou até mesmo eliminar, as fronteiras físicas outrora inexpugnáveis que definem um ser humano como indivíduo? Poderíamos, talvez um dia, num futuro remoto, experimentar o que é ser parte de uma rede consciente de cérebros, uma rede verdadeira de cérebros a pensar coletivamente?”.

“Supondo que essa rede cerebral se tornou real, os participantes individuais não poderiam se comunicar adiante e para trás com os outros apenas pelo pensamento, mas também vivenciando intensamente o que seus colegas sentem e percebem, pois eles aderiram perfeitamente a essa verdadeira ‘fusão de mentes’? No momento, poucas pessoas provavelmente escolheriam aventurar-se por essas águas desconhecidas, mas é impossível saber como as próximas gerações reagirão se forem apresentadas à oportunidade de passar por essa experiência literal de mexer com o cérebro”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: