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Para onde vai o ser humano? O diretor Luc Besson usa a imaginação

Lá nas primeiras aulas de ciência, a professora ensinava em tom quase solene que a humanidade utiliza apenas 10% da capacidade do cérebro. Espantados, os alunos usavam estes mesmo 10% do seu suposto potencial intelectual para fazer as perguntas inevitáveis: e se fosse possível ao cérebro consumir uma porcentagem maior, 20, 30 ou 50%? Ou quem sabe até 100%? O que aconteceria?

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Scarlett Johansson em “Lucy”: entre o humano e o divino

Aluno curioso, o francês Luc Besson levou a sério estas perguntas quase filosóficas (e falaciosas, vide Mito 1 abaixo) e, já adulto, resolveu colocar na tela um exercício de imaginação. Com um roteiro de cinema hollywoodiano, o diretor criou “Lucy”, interpretada pela bela Scarlett Johansson.

A começar pelo nome do filme e da protagonista, o diretor deixa claro que faz um filme pretensioso. Ao escolher Lucy, ele busca referência científica para valorizar sua história. O nome se refere a um dos hominídeos mais antigos já descobertos, em 1970, na Etiópia. O achado, da espécie Australopithecus afarensis, de 3,2 milhões de anos, ganhou fama pela forma como foi batizado. Os pesquisadores envolvidos na descoberta eram fãs de Beatles, do clássico “Lucy in the sky with Diamonds”.

Se, para os cientistas, Lucy marca a origem da humanidade, para Luc Besson Lucy é o futuro e a fronteira da humanidade. Com este verniz científico, disfarçado de homenagem, o diretor criou um personagem que potencializa seu cérebro por acaso, através da ingestão acidental de uma superdroga (leia o Mito 2).

A presença da poderosa substância no sangue faz a protagonista evoluir intelectualmente a passos largos rumo a um estado desconhecido, nas fronteiras do conhecimento humano. A cada 10 minutos de filme, surge um aviso na tela: 50%, 60%, 70%. Cada salto significa níveis incríveis de conquista para o ser humano. A narrativa um tanto metódica não é por acaso, lembra o padrão mais ortodoxo que caracteriza o discurso científico.

Aos poucos, Lucy deixa de sentir dores, porque adquire controle total sobre seu corpo, incluindo, claro, os neurônios. Ela alcança uma espécie de memória total e seus sentidos, exaltados, podem captar qualquer som, imagem, sensação. Os limites do corpo vão sendo expandidos um a um. Tudo isso ao mesmo tempo, de forma descontrolada. Como se tempestades de informações atacassem sua mente.

Até que ela atinge a sonhada capacidade de 100%. É um daqueles momentos em que a ciência – no caso a especulação científica – vai tão fundo que esbarra na filosofia. Surgem naturalmente as questões mais antigas da humanidade: quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Lucy se torna onipresente e assombra a todos, incluindo o professor Norman (Morgan Freeman), que tenta ajudá-la. Ao mesmo tempo em que existe e habita em todos os lugares, como se fosse um deus, Lucy deixa de existir, por perder sua individualidade.

O roteiro de Besson, que remete a filmes como “2001, uma Odisseia no Espaço” e “Matrix”, é recheado de tiros e perseguições. Não condiz com as interessantes questões que poderiam estimular o espectador. O fim também não é dos melhores. Um pouco mais de abstração, ao invés de armas, daria ao enredo um final mais digno.

No entanto, Besson mantém o mérito de se arriscar em uma história tão inesperada e de bilheteria incerta. Minimize a correria do filme e deixe sua mente divagar diante das especulações do diretor francês. Não é toda hora que alguém faz você pensar sobre todo o potencial humano de mudar a si mesmo e o mundo.

Lucy "lê" e interfere em ondas eletromagnéticas

Lucy “lê” e interfere em ondas eletromagnéticas

Abaixo vão algumas das questões discutidas em “Lucy”:

Inteligência x Sentimento: Quanto mais usa a capacidade do cérebro, menos humana Lucy se torna. Lembra a Síndrome de Savant, através da qual pessoas são capazes de feitos incríveis, como memorizar uma lista telefônica inteira. Por outro lado, apresentam poucas habilidades sociais. No caso da personagem, ela abdica de seus sentimentos e perde parte da humanidade. Trata-se do velho (mas só aparente) conflito entre cérebro e coração, inteligência e sentimento, robô e ser humano.

Fim da individualidade: De tão inteligente, Lucy afeta o tempo e o espaço ao seu redor. Invade televisores e computadores apenas com a força da mente. É capaz de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Por fim, praticamente descarta o corpo para estar em tudo simultaneamente.

Deus x Homem: A ubiquidade, esta capacidade de estar em todos os lugares, aproxima de vez a personagem de Deus. Ela pode voltar no tempo – e até se encontrar com a Lucy original –, “ler” ondas elétricas, decifrar todos os mistérios do mundo. O ser humano, então, se torna um deus tecnológico, que coordena o universo a partir somente de impulsos elétricos. É como se a tecnologia fosse o futuro inevitável da evolução da humanidade, a exemplo da visão pós-humana inerente a filmes como “Robocop” e “Homem de Ferro”.

Mito 1: O filme se fundamenta numa premissa que é falsa. Não passa de mito a história de que o ser humano utiliza apenas 10% de sua capacidade. Neste artigo, o neurologista Barry Gordon explica que “usamos virtualmente cada parte do cérebro e a maior parte dele está ativa durante quase todo o tempo”.

Mito 2: A droga chamada de CPH4, que dá os superpoderes à protagonista, não existe. Mas se baseia em uma substância real produzida em pequenas quantidades por grávidas a partir da sexta semana de gestação. A enzima é importante para o desenvolvimento do feto, mas teria quase nenhuma consequência em adultos. Seus efeitos sobre o cérebro de Lucy são pura especulação do diretor.

Curiosidade: Inevitável a comparação entre dois dos últimos filmes de Scarlett Johansson, ambos com temática futurística. Em “Ela”, a atriz interpreta uma máquina que quer virar ser humano. No filme “Lucy”, temos um ser humano buscando se tornar uma máquina. Alguma possibilidade destas histórias acabarem bem?

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