Deixe um comentário

Copa: Vaias, palavrões e identidade nacional

Muito já se falou sobre as vaias e xingamentos à presidente Dilma Rousseff durante a Copa do Mundo. Retomo o assunto ao fim do torneio porque acredito que as ofensas revelam bastante não apenas sobre as circunstâncias atuais do país e do mundo mas por dizer algo até sobre a identidade nacional. Como já escreveram brilhantes sociólogos deste país, o futebol ajuda a explicar o povo brasileiro.

Sim, explicar. Porque os apupos e os palavrões não dizem respeito somente ao calor de uma partida de futebol. Eles são reflexos da vocação do brasileiro em malhar o Judas, não por acaso uma tradição resistente no país, na véspera da Páscoa. Parece-me cada vez mais claro que nós temos forte inclinação à crítica, à reclamação, à destruição. Qualquer um vira alvo fácil, vide as redes sociais.

Um SUSPEITO de crime vira criminoso condenado, massacrado e, se possível, desterrado, assim que seu nome ganha as páginas dos jornais e os portais da internet. Não há presunção de inocência, direito à resposta, a busca pelo famoso “outro lado”. Ninguém quer ouvir o que o suspeito tem a dizer. Até o advogado que se dispõe a defendê-lo é encarado como tão “criminoso” quanto, muito antes de qualquer veredicto. E isso só por fazer o seu trabalho e dar a alguém o direito de defesa.

A vaia fácil e as ofensas públicas. Identidade nacional?

A vaia fácil e as ofensas públicas. Identidade nacional?

Não vejo coincidência, portanto, nos sucessivos casos de “justiçamento” divulgados pela mídia nos últimos meses. Pessoas que, em grupo, adquirem a coragem necessária para perpetrar homicídios de indivíduos que não se sabem inocentes ou culpados. É a justiça sendo feita pelas “próprias mãos”, como na Idade Média. E, contra o batido argumento do “falta policiamento” e “o estado não fornece segurança”, lembro que nos casos de homicídios nenhuma pessoa fez o trabalho de polícia, que seria encaminhar o suspeito até a delegacia, embora houvesse condições para tanto.

Em um país onde as críticas são fáceis, e raras são as iniciativas de indivíduos em busca de soluções verdadeiras para problemas coletivos, compreensível que um político ou mesmo um jogador de futebol vire alvo de ofensas pessoais. Restrinjo o tema ao caso esportivo porque o presidencial exigiria outro texto.

E rejeito toda a pressão feita sobre os jogadores da seleção brasileira, quase acuados para conquistar o hexacampeonato. Esta pressão não é fruto da “paixão nacional” do brasileiro pelo futebol. O esporte favorito do brasileiro é vencer. Não há preferências por modalidades.

Assim, o vôlei vira a mania nacional se equipe do técnico Bernadinho estiver arrasando adversários. E para-se tudo para ver a final olímpica. Se Ayrton Senna deixa todos os rivais para trás, o Brasil vira o país da Fórmula 1. E não aceitamos algo menor que um tricampeão. Então, se Felipe Massa perde o título na última volta… “Como tá chata essa corrida, né?”. Pronto, hora de encontrar um novo esporte para superar as frustrações nacionais.

A pressão – que, justiça seja feita, foi iniciada pela própria comissão técnica da seleção – é sintoma da ânsia de criticar. A preferência pela destruição, em detrimento da construção. As piadas, depois da derrota acachapante diante da Alemanha, são apenas revolta atenuada, mascarada pelo riso.

Após a estrondosa queda da seleção, a pressão, estágio anterior da crítica, só mudou de alvo. Nas ruas, os futuros representantes do Brasil nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, já ouviam cobranças do tipo: “Ei, vê se treina para não fazer fiasco na Olimpíada, que nem a seleção na Copa, hein!”. Relato verídico de ao menos um atleta brasileiro com potencial de conquistar o ouro daqui a dois anos.

Como se vê, a pressão é fácil, a crítica, corriqueira. E só citei a área de esportes aqui. Poderia me alongar para outros setores da sociedade. Difícil é concentrar energia em busca de soluções para os males do nosso país.

Legado

O pessimismo deu lugar à empolgação quando a bola rolou nos gramados da Copa. Muitos elogios ao desempenho técnico, tático e físico. Dos que gostam de futebol, raros se decepcionaram. Mas ainda é muito cedo para falar do legado do Mundial ao país, de algo que vá além das obras de mobilidade urbana (completas e incompletas).

Acredito que há ao menos um grande legado para a própria história do Mundial. As manifestações de “Fora Copa” e “Fora Fifa” acenderam o alerta na entidade que rege o futebol mundial. Diante da insatisfação de muitos brasileiros com a realização da Copa aqui, principalmente em relação aos gastos públicos e aos benefícios concedidos aos organizadores (sempre exigidos dos países-sede do evento), a Fifa passou a repensar a forma como escolhe os candidatos a receber o Mundial.

Antes mesmo da Copa começar, o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, já indicava que a eleição para escolher o país-sede poderia ser precedida de plebiscitos pelos futuros candidatos a sediar o evento. Assim, a população seria ouvida antes de as autoridades chancelarem qualquer candidatura.

O plebiscito já é realidade em alguns países, mais desenvolvidos, não por acaso. Recentemente, as populações de Munique e Estocolmo disseram não à candidatura das cidades a receber os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. Em Copa do Mundo, isso ainda não aconteceu.

Mas, com a força das manifestações do povo brasileiro, as futuras Copas poderão passar por um criterioso processo de aprovação nacional antes da oficialização das candidaturas. Talvez esse seja o grande legado da Copa do Mundo do Brasil para o mundo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

<span>%d</span> blogueiros gostam disto: