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Fernanda Torres, a versão feminina de Chico Buarque

Diz o senso comum que Chico Buarque é um dos raros homens que verdadeiramente compreende as mulheres. Nunca esbarrei em pesquisa que renegue esta conclusão e nem em mulher que rejeite o cantor, embora acredite que isso tem a ver com seus olhos verdes.

Capa de “Fim”, romance de estreia de Fernanda Torres

Ela não tem olhos verdes. Não é daquelas que chama a atenção da classe masculina logo de cara. E, assim como Chico, é filha de alguém responsável por grandes contribuições culturais à sociedade. Ele se destacou ao “ler” a alma feminina em suas canções. Ela, Fernanda Torres, escancarou o espírito masculino em seu primeiro romance, ironicamente chamado de “Fim” (Companhia das Letras).

Esqueça a filha de Fernanda Montenegro e a boa atriz. Estamos falando aqui de uma grande escritora. Daquelas que prende o leitor desde a primeira linha, mesmo quando a primeira linha é um desabafo ranzinza de um idoso frustrante e frustrado:

“Morte lenta ao luso infame que inventou a calçada portuguesa. Maldito d. Manuel i e sua corja de tenentes Eusébios. Quadrados de pedregulho irregular socados à mão. À mão! É claro que ia soltar, ninguém reparou que ia soltar? Branco, preto, branco, preto, as ondas do mar de Copacabana. De que me servem as ondas do mar de Copacabana? Me deem chão liso, sem protuberâncias calcárias. Mosaico estúpido. Mania de mosaico. Joga concreto em cima e aplaina. Buraco, cratera, pedra solta, bueiro-bomba. Depois dos setenta a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos”, diz Álvaro, um dos cinco amigos que Fernanda “acompanha” em sua obra.

Álvaro, Ciro, Neto, Silvio e Ribeiro são o equivalente masculino de Ana, Joana, Terezinha, Lily e tantas outras personagens das músicas de Chico. Nas canções, ele aponta o mundo sob o ponto de vista delas. No romance, Fernanda narra seus capítulos a partir do olhar de cada um deles. Olhar triste, intenso, estúpido, destrutivo, efusivo.

Tão variados quanto às possibilidades que as décadas de 60 e 70 davam a sua classe média. Sim, estamos falando de cariocas. Nem ricos, nem pobres. Todos com limitações, medianos – medíocres, diria Álvaro –, homens comuns. Recheados de desejos, medos, fragilidades, inseguranças. E drogas e mulheres, claro, indivíduos condizentes com as nuances do seu tempo.

Fernanda imprime no papel o ímpeto e o desânimo destes homens. O orgulho, a conduta inconsequente. Os abusos, a necessidade de assumir riscos, a busca eterna pela autoafirmação. Eles resistem às mudanças, se esquivam das novas exigências do mundo, fogem de si mesmos. Não conseguem amadurecer, por fim.

Tudo isso num ritmo informal, tão fluido quanto as melhores passagens de Marcelo Rubens Paiva em “Feliz Ano Velho”. Fácil de atravessar as 208 páginas de “Fim”. Difícil é compreender esta capacidade da autora de aproveitar as vivências, em contato privilegiado com figuras como o ator Jorge Dória e o cartunista Millôr Fernandes, amigos dos seus pais, para criar relatos de vida tão intensos e nem tão ficcionais assim.

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