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Contra a intolerância, mais cultura e menos egoísmo

Nuccio Ordine é um professor de literatura da Universidade da Calábria que vem chamando a atenção na Europa. O italiano se destacou em razão do livro “A Utilidade do Inútil”, no qual critica a valorização excessiva das atividades que geram lucro e o menosprezo às ocupações menos lucrativas, mas essenciais ao ser humano por seus propósitos nobres. Ele se refere, por exemplo, à função de professor e às artes, que podem nos transformar em pessoas menos egoístas.

O professor italiano Nuccio Ordine

Algumas das ideias do professor podem ser resumidas pelos trechos abaixo, retirados de uma entrevista concedida ao Estadão. Para quem se interessar, cito no fim o link do material completo publicado pelo jornal.

“A felicidade, como nos recorda Montaigne, não consiste em possuir, mas em saber viver. No meu livro, quis chamar a atenção sobre os saberes que hoje são considerados inúteis porque não produzem lucro. Sem a literatura, a filosofia, a música e a arte, nós construiremos uma humanidade desumana, violenta, formada por indivíduos capazes de pensar exclusivamente em interesses egoístas”

“(…) No universo do utilitarismo, um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca mais que uma poesia, uma chave-inglesa mais que um quadro, porque é fácil entender a eficiência de uma ferramenta, mas vem se tornando cada vez mais difícil entender para que servem a música, a literatura ou a arte”

“(…) Reduzir o valor da vida ao dinheiro mata toda possibilidade de idealizar um mundo melhor. Somente o saber pode fazer frente ao domínio do dinheiro, pelo menos por três razões. A primeira: com o dinheiro pode-se comprar tudo (dos juízes aos parlamentares, do poder ao sucesso), menos o conhecimento. Sócrates lembra a Agatão que o saber não pode ser transferido mecanicamente de uma pessoa a outra. O conhecimento não se adquire, mas se conquista com grande empenho interior.

A segunda razão diz respeito à total reversão da lógica do mercado. Em qualquer troca econômica há sempre uma perda e um ganho. Se compro um relógio, por exemplo, “perco” o dinheiro e fico com o relógio; e quem me vende o relógio “perde” o relógio e recebe o dinheiro. Mas, no âmbito do conhecimento, um professor pode ensinar um teorema sem perdê-lo. No círculo virtuoso do ensinar, enriquece quem recebe (o estudante), enriquece quem dá (quantas vezes o professor aprende com seus estudantes?).

Trata-se de um pequeno milagre. Um milagre – e essa é a terceira razão – que o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw sintetiza num exemplo: se dois indivíduos têm uma maçã cada um e fazem uma troca, ao voltar para casa cada um deles terá uma maçã. Mas, se esses indivíduos possuem cada um uma ideia e a trocam, ao voltarem para casa cada um deles terá duas ideias. Mesmo se em alguns momentos da história o saber não soube ou pôde eliminar por completo a barbárie, não temos outra escolha. Devemos continuar a crer que a cultura e uma educação livre são os únicos meios para tornar a humanidade mais humana”. 

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,democracia-liquida,1130732,0.htm

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