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O medo, as respostas fáceis e o vídeo game

A história já foi bem divulgada pela imprensa. Pai, mãe, filho adolescente, avó e tia-avó foram encontrados mortos em casa, no norte da capital paulista. Quatro pessoas assassinadas na mesma família chocaria qualquer um, ainda mais quando a suspeita do massacre recai principalmente sobre os ombros do filho, que nem pode mais se defender.

Não é a única hipótese. O delegado responsável pelo caso investiga uma possível retaliação de criminosos contra os pais, que são policiais. Eles teriam sido mortos por não terem participado de crimes empreendidos pelos colegas da PM. Ou ainda porque teriam delatado algumas destas ações ilícitas.

Pela primeira hipótese, o Caso Pesseghini (sobrenome da família assassinada) remete aos crimes de Suzane von Richthofen e Alexandre Nardoni. São crimes domésticos e, com o caso de Suzane, tem em comum o parricídio, este mistério da natureza.

Mistério porque soa antinatural o crime contra aquele que o gerou, que proporcionou as circunstâncias para o desenvolvimento da criança, adolescente e adulto que vem a se tornar o algoz do próprio pai ou da mãe. Difícil de compreender por envolver os sentimentos de filho para pai e vice-versa e por envolver a maldade humana, o medo, as motivações mais inconfessáveis.

Evidentemente, todos estes elementos são potencializados por problemas dentro de casa. Mas as explicações levantadas pela imprensa ainda estão longe de dar conta do mistério neste (se for confirmada a suspeita sobre o adolescente) e nos diversos casos de parricídio – foram 246 casos entre 2005 e julho de 2011 no Brasil, segundo estudo realizado recentemente.

“Os motivos levantados pelos jornais, via de regra, são fúteis. Cerca de 50% deles, referem-se a discussões, brigas, autoritarismo, enfim, a desavenças típicas da maioria das famílias. Aparentemente, estes motivos não justificariam um ato tão violento contra a natureza humana como o de ‘matar os próprios pais’”, explicam as psicólogas Paula Inez Cunha Gomide, Ana Maria Freitas Teche, Simone Maiorki e Singra Mara Nadal Cardoso, autoras do estudo publicado pela Sociedade Brasileira de Psicologia.

“Além disto, dificilmente, os motivos ‘reais’ que estariam justificando este crime violento seriam informados aos policiais ou aos repórteres policiais, no momento em que o crime está sendo investigado. A literatura especializada tem mostrado que o indivíduo comete o crime contra pais abusadores, que os maltrataram física, psicológica e sexualmente. Estas informações somente serão obtidas por profissionais, psicólogos forenses, especializados”, ponderam as especialistas na pesquisa que pode ser lida na íntegra aqui.

Como se vê, o tema é complexo. Daí a dificuldade de se aceitar as respostas fáceis que “explicariam” o crime. Incapaz de compreender situações tão abjetas, a sociedade busca as justificativas que estiverem mais acessíveis, mais palpáveis, digamos assim. Agarra-se à qualquer resposta na ânsia de ver o mundo fazendo sentido novamente.

Aí surgem hipóteses como a de que o adolescente teria sido motivado pelos seus jogos de vídeo game. Como gostava de dar tiros nos inimigos virtuais, natural que quisesse atirar nos inimigos reais dentro de casa, argumentam os defensores desta ideia. Simples assim.

É como se, ao culpar algo frio, como um jogo eletrônico, tirássemos todo o elemento humano envolvido no caso. O vídeo game, este intruso na rotina familiar, teria sido o grande culpado. Logo, o responsável pela tragédia vem de fora, sempre de fora. E não de dentro do ser humano.

A resposta simplista talvez seja motivada pelo medo de encarar o caráter humano em toda sua complexidade. Esconde-se o lado mais negativo com o objetivo de se sentir mais seguro consigo mesmo e com os outros. Rotula-se o criminoso como “monstro” para negar sua natureza humana, capaz, sim, de cometer atrocidades. Assim como é capaz de grandes feitos (já contei histórias que revelam o lado mais belo do homem neste blog).

Independentemente de qual seja a hipótese que venha a ser confirmada pelos investigadores, este caso revela todo o medo que o ser humano tem de si mesmo. Medo de uma espécie que é capaz de matar de forma passional – se for provada a motivação familiar do adolescente -, ou calculadamente, se os investigadores chegarem à conclusão de que o crime foi uma retaliação aos pais policiais.

2 comentários em “O medo, as respostas fáceis e o vídeo game

  1. É exatamente isso que eu penso filho, é muito mais fácil apontar o primeiro culpado talvez o mais obvio, e passar logo para o proximo caso. Ficamos muitissimo chocados com atos desse tipo, porem tomara não tenha sido o menino. bjo.Mãe

  2. Olá Felipe, gostei muito dos seus comentários sobre esse ocorrido. Sou uma das pesquisadoras que vc citou, estudo parricídio desde 2010. Fiz algumas pesquisas depois desta, e via de regra, os parricidas sofreram maltratos físicos, psicológicos e sexuais por quem deveria amá-los e protegê-los. Na minha pesquisa do Mestrado entrevistei os parricidas que estavam cumprindo pena em unidades prisionais (artigo no prelo). Agora estou na Europa fazendo Doutorado. Esse é um tema que precisa ser difundido e explorado. No contexto do parricídio, é comum a mídia colocar o agressor como um monstro e a vítima, como um pai ou uma mãe dedicada que não teve chance de defesa. Quando na verdade, o parricida foi vítima a vida inteira.
    Acho que essa frase cabe bem aqui: “Do rio que tudo arrasta se diz violento, porém ninguém diz, violentas as margens que o comprimem”. Brecht
    Finalizando gostei do post. 🙂

    Com os melhores cumprimentos, Ana.

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