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Procura-se: Um Líder

Foram cerca de 3 milhões em apenas uma manhã na praia de Copacabana. Foi apenas um dos inúmeros eventos que mobilizou a população carioca no intervalo de sete dias. O prefeito do Rio cravou: é como ter 5 réveillons na cidade em uma semana. Difícil mensurar, difícil fazer comparações com outros eventos. Poderia se dizer que tudo isto definiu a Jornada Mundial da Juventude. Ou melhor: tudo isto definiu a visita do Papa Francisco.

Sim, era esperada muita gente no Rio. Milhões, até. Sim, qualquer papa mobiliza muita gente em um país (ainda) majoritariamente católico. E, sim, vivia-se a expectativa da primeira viagem oficial do novo Bispo de Roma. Mas o que aconteceu no Rio e, por extensão, no Brasil, foi muito além da visita de um papa ou de um chefe de estado. O que tivemos aqui foi a passagem de um Líder, assim mesmo, em maiúscula.

A visita de Francisco nos faz pensar em um traço marcante da atual sociedade brasileira: estamos sem líderes.

Líder, na definição do Dicionário Houaiss, é (1) “pessoa cujas ações e palavras exercem influência sobre o pensamento e comportamento de outras”; (2) “pessoa que se encontra à frente de um movimento de caráter religioso, filosófico, artístico, científico, etc”; e mais importante (3): “algo ou alguém que guia, conduz”.

A terceira definição é a mais reveladora porque se choca diretamente com a ideia de autoridade (“direito ou poder de ordenar, decidir, atuar, de se fazer obedecer”). A liderança é natural, espontânea. Não é imposta. No caso de Francisco, ele alcançou a autoridade ao ser escolhido pelos seus pares por suas ações e exemplos. Foram estes que conquistaram os brasileiros.

O papa preencheu um vácuo. Um espaço deixado vazio por pessoas de diferentes áreas da sociedade que tiveram sua chance de servir de guia, referência. E não me refiro somente a governantes e políticos. O conceito de liderança, como se viu acima, é bem mais amplo.

Estamos sem líderes. A corrupção que detona a representatividade dos políticos – a falta de lideranças foi uma das causas dos protestos de junho – também é recorrente em outras áreas da sociedade. Atletas consagrados, tidos como heróis pelas crianças, são flagrados em exames antidoping.

Empresários de sucesso corrompem governantes e se deixam corromper. Religiosos esquecem seus votos e são pegos em escândalos sexuais e financeiros. Famosos se escondem atrás de ações de marketing bem calculadas. Temos artistas que não são dignos do nome porque nada criam. Apenas reproduzem, copiam, imitam.

Sem líderes, sonhamos com heróis que não existem. Talvez não seja coincidência o sucesso dos filmes estrangeiros com protagonistas dos quadrinhos. Mais sintomático: o herói brasileiro dos últimos tempos é um personagem fictício, ex-policial que brilha ao denunciar companheiros de profissão e políticos corruptos nas telas do cinema. O capitão Nascimento não vai salvar o Brasil.

Diante desse quadro, não é difícil entender porque o Papa Francisco levou milhões à Jornada Mundial. Seu sucesso não se deve apenas à simpatia, clareza de ideias, humildade. O argentino Jorge Mario Bergoglio fez sucesso em solo nacional porque não se esconde atrás de discursos. Mais do que palavras, ele exibiu atitudes, deu exemplos, agiu (leia post anterior). Para os religiosos, renovou a fé. Para os não-religiosos, mostrou a coerência dos seus pronunciamentos. E deixou mensagens de elevação moral, voltadas à qualquer crença. Ateus e agnósticos também podem se beneficiar delas.

Confira algumas de suas poderosas palavras:

“Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-lo? O catecismo da Igreja explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser marginalizados por causa disso, mas devem ser integrados na sociedade.”

“Acho que é importante que todos trabalhemos pelos outros, podar o egoísmo. Um trabalho pelos outros segundo os valores da sua fé. Cada religião tem suas crenças. Mas, dentro dos valores de sua própria fé, trabalhar pelo próximo. E nos encontrarmos todos para trabalhar pelos outros. Se há uma criança que tem fome, que não tem educação, o que deve nos mobilizar é que ela deixe de ter fome e tenha educação. Se essa educação virá dos católicos, dos protestantes, dos ortodoxos ou dos judeus, não importa.”

“Quando somos generosos acolhendo uma pessoa e partilhamos algo com ela, não ficamos mais pobres, mas enriquecemos.”

“Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo. O diálogo entre as gerações, o diálogo com o povo, a capacidade de dar e receber, permanecendo abertos à verdade.”

“Somos responsáveis pela formação das novas gerações, capacitadas na economia e na política e firmes nos valores éticos. Temos de reabilitar a política, que é uma das formas mais altas da caridade.”

“O futuro exige de nós uma visão humanista da economia e uma política que realize cada vez mais a participação das pessoas, evitando elitismos.”

“Acompanhei atentamente as notícias a respeito de muitos jovens que, em tantas partes do mundo, saíram pelas ruas para expressar o desejo de uma civilização mais justa e fraterna. Mas fica a pergunta: Por onde começar? Quais são os critérios para a construção de uma sociedade mais justa? Quando perguntaram a Madre Teresa de Calcutá o que devia mudar na Igreja, ela respondeu: você e eu!”

“O Senhor redimiu todos nós, todos nós, com o sangue de Cristo. Todos nós, não apenas os católicos. ‘Padre, até os ateus?’ Sim, até os ateus. ‘Mas eu não creio, padre, eu sou um ateu!’ Mas faça o bem: nós vamos nos encontrar em algum lugar.”

Um comentário em “Procura-se: Um Líder

  1. Esse texto lavou minha alma,limpo e claro. PARABENS FILHO!

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