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O Epíteto do Papa

O sorriso fácil do Papa Francisco

O nome de Jorge Mario Bergoglio virou sinônimo de mudança e renovação desde seu anúncio oficial como o novo   papa, no dia 13 de março. Não por acaso. O cardeal argentino não estava nas listas de favoritos e acabou se tornando o primeiro papa latino-americano, o primeiro jesuíta e o primeiro a homenagear Francisco de Assis.

As novidades aumentaram as expectativas sobre seu promissor papado. E logo Francisco se viu envolto em diversos epítetos, aqueles apelidos que grandes figuras da história carregam junto ao nome, como Alexandre, “o Grande”, e Rui Barbosa, “O Águia de Haia”.

Epítetos nem sempre são positivos, que o diga Átila, “O Flagelo de Deus”. E grudam com grande rapidez, como refrãos infames de músicas populares, daí a importância deles. Não à toa a publicidade tenta se apoderar deles. Até no futebol há tentativas, como Ronaldo, “O Fenômeno”.

Somente o futuro vai ditar o epíteto de Francisco. Enquanto os historiadores aguardam o passar do tempo para análises mais acuradas, o blog MentePlural enumera os “apelidos” do argentino já levantados pela imprensa e avalia seus fundamentos, a partir das ações de Francisco nestes quatro primeiros meses de papado.

Francisco, o Papa Reformador

Talvez seja o epíteto mais ansioso de todos. Boa parte dos católicos aguarda por mudanças bruscas na Igreja, com eventual liberação do casamento para padres, união homossexual e a permissão para mulheres rezarem missas. Pura ilusão. O que Francisco quer é reformar a estrutura da Cúria a partir dos conceitos cristãos de humildade e simplicidade, sua maior revolução.

Quer ver também maior responsabilidade e honestidade na administração da Igreja. Por isso, já formou comissão para avaliar as atividades do Banco do Vaticano. E reformou o Código Penal local para estabelecer punições mais severas aos envolvidos em casos de pedofilia.

No aspecto litúrgico, o papa tenta se aproximar dos fiéis que se divorciaram. Eles acabaram afastados da Igreja nas últimas décadas em razão da intolerância das regras eclesiásticas.

Francisco parece ter a intenção de exportar seu estilo de administração, mais transparente e aberto, para outros governos. No Rio de Janeiro, terá encontros com políticos e intelectuais locais em uma tentativa de aproveitar o momento vivido pelo Brasil para influenciar o atual padrão de governo, fortemente criticado nas ruas.

Francisco (Photo by Christopher Furlong/Getty Images)

Francisco (Photo by Christopher Furlong/Getty Images)

O Papa Humilde

Não é o epíteto mais repetido por acaso. Vaticanistas são praticamente unânimes em apontar a humildade de Francisco como seu maior diferencial em comparação aos papas anteriores. Trata-se, de fato, da maior reforma a ser realizada dentro e fora da Cúria.

O papa argentino quer priorizar os excluídos e acabar com excessos, luxos, desperdícios e regalias que só estimulam o personalismo e a vaidade, características que não condizem com os representantes de Jesus na Terra. Como se sabe, o Cristo não construiu palácios e deu inúmeros exemplos de simplicidade há dois mil anos.

Com o passar do tempo, fica cada vez mais claro que a atitude simples de Bergoglio não é fruto de demagogia. Não soa artificial e revela crescente consistência. O papa sempre foi conhecido pelo desapego. Amigos e parentes, em inúmeras entrevistas, só reforçam o estilo de vida austero do argentino.

Os exemplos de simplicidade se multiplicam. Ele abdicou do luxuoso quarto papal para habitar cela mais simples, mais adequada aos hábitos de um jesuíta. Todas as manhãs ele acorda sozinho, arruma sua cama destituída de ornamentos e prepara o próprio café. Já foi flagrado diversas vezes apagando as luzes ao deixar os aposentos que ocupa.

A humildade, pregada em uma das famosas Bem-Aventuranças de Jesus, não apenas são coerentes com os ensinamentos de Cristo, como também atraem a simpatia alheia. Talvez seja a principal razão da rápida popularidade conquistada pelo argentino. Em tempos de crise econômica, sua preocupação em cortar gastos e evitar desperdícios deve atrair ainda maior respeito por parte das autoridades e diante da população europeia, em momento econômico difícil.

O novo papa dispensou os ornamentos e preferiu utilizar uma poltrona mais simples

O novo papa dispensou os ornamentos e preferiu utilizar uma poltrona mais simples

O Papa dos Pobres (e das Ruas)

Quando era arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio costumava circular livremente pela capital argentina. Era comum auxiliar os pobres em visitas aos bairros da periferia. Como papa, ele terá menos espaço para o corpo a corpo. Seu desafio será manter este costume alinhado aos compromissos administrativos e litúrgicos.

No Brasil, Francisco já deu sinais de que não pretende se afastar da população. Minutos após sua chegada, ele já beijava crianças no meio do trânsito carioca, sem demonstrar qualquer medo diante do forte assédio dos brasileiros. Em sua estada, o papa planeja visitar dependentes químicos e infratores detidos em uma unidade no Rio. Ou seja, sua aproximação com os excluídos será mantida, mas com uma abordagem diferenciada.

O Papa dos Jovens

Não é somente a humildade de Bergoglio que atrai a simpatia alheia. Seu sorriso fácil e a boa vontade com que atende a todos, em comparação à sisudez de Bento XVI, trazem ar fresco para a imagem da Igreja. Sua vocação para quebrar protocolos aumenta ainda mais o seu potencial de se tonar um novo papa pop, agradável aos jovens, cansados da formalidade dos ritos religiosos.

Para reforçar sua imagem de acessível, o argentino fará 17 pronunciamentos públicos antes e durante a Jornada Mundial da Juventude. Deu seu recado logo na primeira fala: “Cristo bota fé nos jovens”, afirmou, em tom informal. Ao ampliar sua exposição, ele pretende se tornar mais conhecido e aumentar a penetração da Igreja na vida pública e na agenda da mídia. Francisco quer que sua voz seja ouvida não apenas para reverter a queda de popularidade do catolicismo mas também numa ação genuína que visa estimular a transformação pessoal.

O Papa Tolerante

Francisco propôs em público mais de uma vez a aproximação entre católicos e seguidores de outras religiões. Cristãos ortodoxos, judeus e até muçulmanos já foram exaltados por suas ligações com o catolicismo. Mais do que discursos, o papa argentino mostra na prática seu exemplo de tolerância com o diferente ao cultivar uma amizade de 20 anos com o rabino Abraham Skorka, uma das principais lideranças do judaísmo na Argentina.

Juntos chegaram a escrever um livro, chamado “Sobre o Céu e a Terra”, e participaram de uma série de programas de TV na Argentina. A amizade perdura mesmo depois da ascensão de Bergoglio ao papado e dos inúmeros compromissos. Skorka define o amigo como “irmão”.

O futuro talvez venha a mostrar que os epítetos se tornem desnecessários no caso do novo papa. Ao olhar para trás, os historiadores poderão concluir que Francisco nada fez além de honrar o próprio nome que escolheu, colocando em prática a conduta pregada por Francisco de Assis, seu inspirador. Se mantiver a coerência em suas ações, o papa será apenas Francisco para a história, sem complementos.

Acima, o então cardeal Bergoglio participa do programa Diálogo Vigente, da TV argentina, ao lado do rabino Abraham Skorka.

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