3 Comentários

A tolerância de Karen Armstrong

Karen ArmstrongNa contramão de cientistas como Richard Dawkins e Sam Harris, a britânica Karen Armstrong é um sopro de tolerância na velha discussão entre religião e ateísmo. Enquanto Dawkins afia sua ironia em obras provocativas, como Deus, um delírio, Armstrong se dispôs a viajar pelo mundo e estudar in loco a religião e as características culturais de diferentes povos. Uma disposição a se destacar por vir de uma ex-freira, criada nas rígidas tradições católicas.

Aos 68 anos, Armstrong já possui uma obra de respeito sobre religião comparada, com livros famosos como o best-seller Uma História de Deus: quatro milênios de busca do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, lançado em 1993 e com versão brasileira da Companhia das Letras. Ela se tornou mais conhecida mundialmente ao ter este livro alçado à referência para leigos em meio à curiosidade sobre o Islã surgida a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001.

Rapidamente, a pesquisadora se tornou famosa em razão do tom acessível das suas obras e também por conta da sua mensagem ecumênica. Com palavras simples, Armstrong defende a fé e a tolerância religiosa através de sua Regra de Ouro: não trate os outros como você não gostaria de ser tratado. Regra que não se restringe ao âmbito pessoal. Serve para o relacionamento entre religiões, líderes políticos e até nações.

É a partir desta regrinha, tão simples quanto eficiente, que a britânica desenvolve seu conceito de religião. Na sua visão, religião consiste em agir, em exercitar as virtudes, e não em acreditar ou pensar. “Religião é comportar-se de forma diferente. Ao invés de decidir se você acredita ou não em Deus, você faz algo, você se comporta de maneira comprometida.”

E, nesta busca pela ação, ela destaca a capacidade humana de ter compaixão no sentido mais profundo, como a habilidade de sentir com o outro. “Quando sentimos com o outro, destronamos a nós mesmos do centro do mundo e colocamos outra pessoa lá. E, quando nos livramos do ego, estamos livres para ver o divino.”

Em visita ao Brasil nesta semana, Karen Armstrong expôs o seu pensamento no projeto Fronteiras do Pensamento, em São Paulo e Porto Alegre. Confira abaixo algumas de suas ideias apresentadas em entrevistas aos jornais Zero Hora e Folha de S.Paulo e nas conferências apresentadas nas duas capitais:

Violência e Religião

“São os Estados e as pessoas que são violentas, e não as abstrações que chamamos de religiões”

Conhecimento religioso como prática

“O conhecimento religioso é derivado da prática – especialmente a prática da compaixão – e não da correção doutrinária. É como nadar ou dirigir, algo que só é possível aprender através da prática diligente e não pela leitura de livros e textos”

Compreensão infantil de Deus

“Estamos hoje falando de Deus e interpretando as escrituras com uma literalidade que não tem paralelo na história da religião. No passado, as pessoas entenderam que o que chamamos ‘Deus’ está fora do alcance do discurso e dos conceitos, mas hoje temos a tendência a domesticar a transcendência, e nossa ideia de Deus é muitas vezes simplista – até mesmo primitiva. Ouvimos pela primeira vez sobre Deus mais ou menos na mesma época em que ouvimos falar de Papai Noel, mas a nossa compreensão do Papai Noel muda e amadurece ao longo do tempo, enquanto que a nossa compreensão de Deus permanece em um nível infantil”

O Novo Ateísmo como reação à visão simplista de Deus

“O Novo Ateísmo é, em grande medida, um produto do fundamentalismo religioso, o qual tentou domesticar a transcendência de Deus e acabou por transformá-lo em algo inacreditável. Meu problema com [Richard] Dawkins e [Sam] Harris – e conheço superficialmente a ambos – é: 1) que eles parecem saber muito pouco sobre religião e 2) a intemperança com que eles atacam a religião e quem acredita em uma. Eles denunciam a intolerância religiosa, mas correm o risco de tornar-se intolerantes eles próprios. Para mim, o ateísmo é a liberdade de pensar por si mesmo: ela não deve significar a ridicularização das ideias e das crenças dos outros”

A Regra de Ouro

“Quando estudei as religiões, cheguei ao conceito de compaixão. Todas as religiões do mundo desenvolveram uma regra de ouro: não trate os outros como você não gostaria de ser tratado. Às vezes, fala-se na boa ação do dia como se o normal fosse fazer coisas ambiciosas e egoístas. Para Confúcio, a Regra de Ouro nos leva a encontrar o estado de transcendência, porque ela tira o ego do centro do mundo e coloca o outro. O ego nos mantém longe daquilo que há de melhor em nós”.

3 comentários em “A tolerância de Karen Armstrong

  1. Excelente, Felipe!
    A compaixão é a maior das virtudes, requer de fato reflexão.
    Com carinho
    Sandra

    • Com certeza, Sandra. A compaixão é essencial e é praticamente onipresente nas religiões. Mas o mais legal é que ninguém precisa seguir uma religião para praticar a compaixão, fruto direto da empatia.
      Bjs!

  2. Ótima!!!
    Adorei Fe!!!
    Concordo plenamente com voce SanSan Compaixão para com todos!!!
    E adorei quando ela diz sobre praticar para podermos entender a religião.
    Obrigada meu Amigo pela dica!!!!
    Bjoooosss e Saudadessss!!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: