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O Segredo de Nadal

Rafael Nadal é, antes de tudo, um forte. Desde os duros treinos na infância, o espanhol superou uma infinidade de obstáculos, entre uma má formação óssea no pé esquerdo, lesões nos dois joelhos e a intransigência do treinador, até chegar ao topo do tênis.

Mesmo diante de circunstâncias pouco favoráveis, ele se desenvolveu: evoluiu tecnicamente e melhorou seu preparo físico. Cresceu tanto que deixou para trás a alcunha de Rei do Saibro para virar um tenista respeitado em qualquer piso a ponto de ser considerado um dos melhores da história.

Sua força, porém, não se restringe ao aspecto físico e técnico. Depois de oito anos jogando em altíssimo nível, Nadal decidiu revelar como desenvolveu sua incrível força mental, o grande segredo do seu sucesso. Pois, se confiança é atributo decisivo para um atleta em qualquer esporte, difícil é manter esta crença em si mesmo nas situações mais desfavoráveis. Daí o diferencial do espanhol que, em um episódio na infância, quando ainda aspirava pelo futebol, mostrava inabalável fé na virada do seu time quando ele e seus companheiros perdiam por 6 a 0.

Desde criança, Nadal resiste diante da dificuldade e não entrega os pontos (com trocadilho). “Resistir significa aceitar. Aceitar as coisas como elas são e não como você gostaria que elas fossem e, em seguida, olhar para a frente, não para trás – ou seja, conscientizar-se de onde você está e pensar com frieza”, ensina o tenista em sua autobiografia Rafa: Minha História. Evidente que esta lição não se restringe ao tênis, muito menos ao esporte.

“Resistir”, portanto, significa aceitar suas próprias limitações, suas dores, a superioridade momentânea de um adversário. “Ao dar mais crédito ao seu oponente, ao aceitar que ele fez um lance sem chance de defesa, ao assumir o papel de espectador por um instante e reconhecer generosamente uma jogada magnífica, é possível conquistar o equilíbrio e a calma interior. Você para de pressionar a si mesmo”.

Além de prover certo equilíbrio, a humildade, neste sentido, também contribui para o crescimento do atleta. “Compreender a importância da humildade é entender como é fundamental se concentrar ao máximo nos estágios cruciais de uma partida, saber que você não vai vencer só por causa do talento que Deus lhe deu”, diz o tenista em sua biografia, escrita em parceria com o jornalista britânico John Carlin, autor do livro que deu origem ao filme Invictus.

Exigente consigo mesmo, Nadal admite que não é fácil manter a concentração durante toda uma partida de tênis, que pode chegar facilmente a 3 horas de duração. Seu maior desafio é manter a “mente vazia”, alheia a todos os problemas extra-quadra, para focar apenas na leitura do jogo: a melhor tática, o golpe mais adequado para o momento, as reações do rival.

Isto significa até “esquecer” de eventuais dores físicas quando se está em quadra. Certa vez, venceu uma partida do juvenil com uma fratura no dedo mindinho da mão esquerda, de onde saem seus melhores golpes. “É uma questão de esvaziar a mente antes do jogo. Durante a partida, quase me esqueci da dor. Serve de lembrete de que a mente pode vencer a matéria. Se você realmente quiser alguma coisa, nenhum sacrifício será grande demais”, afirma.

Tal mentalidade foi conquistada em 21 anos de dedicação, disciplina, treinos intensos desde os cinco anos de idade e eternos embates com seu treinador, o tio Toni Nadal. Ele condensou o aprendizado obtido em todos esses anos de trabalho em uma teoria tão simples quanto eficaz. Para o técnico, o tenista deve sempre se apresentar com uma “cara boa” para o jogo.

Trata-se de uma postura concentrada que tem início a partir da expressão facial do atleta. Para Toni, a “cara boa” influencia diretamente o estado de espírito do atleta e, por consequência, condiciona seu comportamento dentro de quadra. No caso do seu pupilo, o técnico sempre cobra um rosto sem expressão, que não denote irritação por um erro no ponto anterior ou empolgação pelo acerto.

Estimula, assim, a concentração no presente, no ponto que está sendo disputado, sem ansiedade pelo próximo ponto. Em oposição, uma expressão de dor, raiva ou nervosismo contagiaria todo o corpo, “sugaria” as forças do atleta e comprometeria sua confiança e sua performance.

Não é à toa que Nadal derrota alguns adversários antes mesmo do primeiro movimento em quadra. Sua “cara boa”, praticamente sem expressão, transmite ao adversário a “mensagem opressora e desanimadora de que vai fazer todo o possível para vencer o jogo por 6/0 e 6/0”, diz o aposentado tenista espanhol Carlos Moyá, conterrâneo e ex-parceiro de treino de Nadal.

Em tempo – A incrível força mental faz de Nadal um fenômeno desde a adolescência. Suas conquistas no circuito profissional se empilham desde os 15 anos. Em 2010, se tornou o mais jovem tenista a “fechar” o Grand Slam – vencer ao menos uma vez o Aberto da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e o US Open. Ele acumula ainda a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim e 90 semanas no topo do ranking da ATP – atualmente é o terceiro colocado.

2 comentários em “O Segredo de Nadal

  1. Não pra negar que o cara é sensacional! Um dos poucos, senão o único, que faz o leão da montanha tremer, como diria Dácio Campos fazendo referência a Roger Federer.
    Pode apanhar o jogo inteiro mas mantem o foco até o último game. Uma frieza impressionante, apesar da origem espanhola.

    Ah e o presente foi com segundas intenções. Também quero ler o livro!

  2. Não só faz o Leão da Montanha tremer como dá a receita para tanto. Tá lá no livro em alguma descrição sobre Roland Garros. Mais um motivo para admirar essa figura. (O livro tá na mão. É só vir buscar. rsrs)

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